HONRA AO MÉRITO

HONRA AO MÉRITO

 

O doutor X nunca gostou de homenagens, via nelas apenas uma forma de os homens matarem o tempo e se tornarem credores de quem tinha um certo poder de ajudá-los na hora certa. Mas, naquele caso, achava que a falta de um reconhecimento público já beirava a desfeita, pois era mais do que sabido que havia se esfalfado naqueles anos todos para cumprir honrosamente as suas funções. Por isso, quando abriu  o envelope pessoal com o timbre da Câmara de Vereadores e não foram mais do que dois segundos, suspirou:

– Porra, até que enfim! Já não era sem tempo. Aliás, o tempo já passou, na verdade.  Depois de quase sete anos me incomodando nesta merda de comarca e ter sido promovido é que vem a homenagem. Credo, dá até a impressão de que a homenagem é um incentivo para não voltar atrás e que essa gente quer se ver livre de mim. No rumo que as coisas tomaram, se eu tivesse ficado aqui por mais 10 anos, junto com a medalha viria um carro mil zero. Não sei, não sei, isso não está bem. Uma homenagem dessas é para alguém que está pela cidade, que pode se exibir pelas calçadas com a medalha no peito e servir de exemplo para os mais jovens. Dar a comenda assim, para quem está indo embora, parece que é um ultimato. De quem terá sido essa idéia? Deixe ver, ah, só podia ser: “… por iniciativa do vereador Juca Bicheiro”. Bonito prá minha cara. Eu, um magistrado, recebendo a homenagem de um contraventor. E ainda teve um voto contrário, da vereadora Teresa Redonda. É claro que ela não ia concordar, depois de ter sido devolvida à origem quando foi colocada à disposição aqui no fórum pela Prefeitura, onde era persona non grata, durante as minhas férias. Ela ficou fula da vida, eu me lembro muito bem, mas era só o que faltava, deixar uma fofoqueira daquelas fazer politicagem dentro da Justiça. Mas que bosta! Homenageado na partida, por um bicheiro e ainda com um voto contra. São nove vereadores e a cidade tem cem mil habitantes, quer dizer que dez mil são contra mim! Mas o ofício veio assinado pelo Presidente da Câmara e houve dez votos a favor. Tenho que ver pelo lado positivo. Esse voto contra não conta, todo mundo sabe que é uma retaliação daquela sem-vergonha. Que seja, que venha a medalha, porque essa eu quero guardar com raiva. Como diz o ditado, mais vale uma medalha na gaveta do que duas na parede. Dona Clarina! A Câmara quer me agraciar com a medalha da Honra ao Mérito. Fica chato não aceitar, portanto redija um ofício respondendo que vou comparecer à sessão solene.

A secretária gordinha e de óculos de gatinho ficou com meio corpo para dentro do gabinete, segurando na maçaneta da porta. O doutor X olhou para ela e pensou que aqueles óculos novos não faziam o resultado desejado pela vendedora da armação, que seria alongar o rosto de dona Clarinda, que acabou ficando parecida mesmo com uma espécie de caricatura de um gato. Ela sorriu para o doutor X e parabenizou-o, mas acrescentou:

– Doutor, a Honra ao Mérito não dá direito a medalha, só a um diploma. E a Câmara não faz sessão solene, é uma homenagem que é prestada no final de uma sessão ordinária.

A secretária se aproximava da mesa do juiz com um passinho que lembrava o de uma galinha pronta para bicar uma minhoca, como sempre fazia com um jeito meio infantil quando via que surpreendia o chefe.

O doutor X foi pego de jeito. Então não era medalha e sim diploma. Mas é claro, pois ele não tinha diploma de honra ao mérito dos tempos de primário? Aborrecido, interpelou a secretária:

– E quem foi que falou em ter direito a alguma coisa?

– Desculpe, doutor, não entendi – respondeu a secretária.

– Você falou que a homenagem não dá direito a medalha. Dá a impressão que eu estou pedindo e eu não estou pedindo nada. E resmungou para si: ora, quem pede o direito a alguma coisa são os suplicantes. Cabe a mim, magistrado, conceder ou não. Que expressão mais infeliz. Mas se fosse prá ter direito a alguma coisa, que fosse a uma medalha de uma vez e não a esse tal diploma, que não serve prá nada. O que é que eu vou fazer? Botar numa moldura e pendurar no meu gabinete de outra comarca prá que as pessoas saibam que fui honra ao mérito no passado? Francamente. E ainda me botam na saia justa de ter que aceitar a homenagem.

– Desculpe, doutor, não tive a intenção de desvalorizar a homenagem, eu só quis dizer que medalha, mesmo, é só no caso de cidadão honorário, respondeu aflita a secretária, que tinha a mania de chorar por qualquer coisa.

A ingenuidade da moça apertava na ferida sem perceber. O Doutor X espicaçava-se com essa capitis diminutio:  – eu, um magistrado, receber uma comenda de terceira categoria, uma homenagem chinfrim, de final de sessão, sem medalha e só um diploma? E o que eu vou fazer com um diploma? Certamente não vou dependurá-lo no pescoço e sair por aí, como um cego com sua tabuleta. Se ao menos viesse uma plaquinha para pendurar na lapela… Bem, bem, agora não adianta, é preciso manter a dignidade. Assim, retrucou para a secretária:

– Dona Clarina, faça o favor. Não desvalorize a iniciativa da Câmara. Dá a impressão que só o que dá direito a medalha é que tem valor, onde já se viu?

– Ai, doutor – desculpou-se a secretária, já debulhando um par de lágrimas – eu só quis dizer que o senhor merecia uma medalha por tudo o que fez aqui. E que deveria ser entregue em sessão solene e não no fim de uma sessão, depois que tudo já foi discutido.

Aquilo matava o doutor X. Pois então, não era verdade? Se um magistrado não merecia uma medalha, iam dá-la para quem? Pois ele não representava um Poder do Estado? E fazer a homenagem apenas para encher lingüiça da sessão, no apagar das luzes, como dizia a desastrada de sua secretária, “depois que tudo já foi discutido”? Que impertinência a expressão!

– Mas, dona Clarina, o que é isso? Injuriava-se o doutor X. – Novamente, a senhora fala como se fosse algo sem importância, só prá encher lingüiça da sessão.

A secretária torcia os dedos dentro dos sapatos:

–  Ai, doutor, é melhor eu não falar mais nada, pois não estou encontrando as palavras adequadas para me expressar e não quero aborrecer o senhor dando a impressão que a homenagem é de segunda categoria ou coisa assim. O meu pai recebeu e, no fim das contas, acabou sendo bonito. O mestre de cerimônia falava e passavam uns slides lá na frente.

– O teu pai recebeu esse diploma? Por quê? – indagou o doutor X, intrigado.

– Foi quando a loja dele completou 15 anos de funcionamento na cidade.

– Ah, que legal – respondeu o doutor X com um sorriso sem graça. Do jeito que as coisas vão, pensou, essa homenagem vai precisar de um desagravo à dignidade do cargo em seguida.

– Doutor?

– O que é?

– O ofício, é só responder que aceita a homenagem e pronto?

– Não, diga que aceito e que fico honrado por ter sido lembrado, e que outras pessoas poderiam ser lembradas em meu lugar.

– Mas, doutor, o dono do açougue Schmelzer também vai receber a homenagem junto com o senhor, quer dizer, os filhos, pois o velho já morreu. Vai ser na mesma sessão. O senhor não sabia?

– O quê?

– É verdade, doutor, foi uma proposta da vereadora Tereza Redonda. Quem me disse foi o secretário do foro hoje pela manhã.

– É sério? Perguntava o doutor X,  tentando ganhar tempo para dizer algo apropriado.

– Sim, sério, respondeu a secretária, a essa altura já sorrindo, por imaginar que a referência a seu pai tinha agradado ao chefe. A justificativa é que as suas carnes são qualidade há muitos anos.

– As da Tereza Redonda…?

– Não, do açougueiro.

– Ah.

– Sim, doutor, e justiça seja feita, ele cortava cada bife, hum, merecia até uma medalha.