SEM TIRAR NEM POR

SEM TIRAR NEM POR

 

Naquela primavera, trabalhavam no fórum dois auxiliares de serviços gerais terceirizados, um era índio puro, sorridente e silencioso, na casa dos 50 anos e o outro um tipo português de sobrancelhas grossas arqueadas, olhos bem abertos e vivos, baixo, forte e barrigudo, lembrava-me imediatamente a figura de Sancho Pança. Era o Edson e usava sempre um boné de beisebol, o que completava o aspecto juvenil de sua figura. Tinha 59 anos e exalava força e saúde, mas principalmente uma grande curiosidade e interesse por tudo e sempre fazia intervenções nas conversas com opiniões judiciosas. Os dois faziam basicamente serviços de jardinaria, atividade da qual não entendiam nada e valia a pena ver os dois se esforçando para manejar um cortador de gramas e desenhando as curvas de um jardim de roseiras que iam construindo depois de planejarem juntos a sua arquitetura.

Esse jardineiro levava todo dia um pratinho de comida até um quarteirão próximo, onde o esperava um cachorro, o Trumbico, que vivera sob a proteção forense por uns 10 anos, até que fora, subitamente, despejado por uma juíza diretora de foro que não gostava de animais. Edson servia o prato de comida, esperava o cachorro comer e então voltava para o seu trabalho. Era um compromisso ao qual nunca faltavam nem ele e nem o cachorro. Também fora empregado na tarefa de fazer uma armadilha para engaiolar uns gatos que circulavam no lugar e que também não caíram nas graças da zelosa magistrada e era uma coisa rara de se ver Edson escondido na esquina do prédio, segurando um barbante, pronto para puxar a tampa da armadilha onde colocara comida para atrair os gatos. Lembrava a história do Garrincha, segurando o cordão de um alçapão para pegar canarinhos e quando lhe disseram que ali não havia passarinhos, ele respondeu: não faz mal.

Certa manhã, perguntei ao Edson onde poderia encontrar ratoeiras ali na região e ele me indicou uma casa e logo se prontificou a ir até lá só para buscar a informação. Concordei, mas resolvi fazer companhia ao jardineiro, que tão prontamente se dispôs a ir até a loja de ferragens para comprar armadilhas para ratos e no caminho contei a ele que meu cachorro havia sofrido um ataque epilético.

– Teve uma convulsão? – perguntou.

– Sim – respondi, me dando conta de que ele havia se expressado melhor do que eu.

– E chegou a babar? – continuou.

– Sim, mas primeiro se sacudiu no chão…e eu fiquei consolando ele até passar.

– O animal fica muito cansado depois –disse ele – aqueles movimentos iniciais que ele faz são contrações dos músculos resistindo à crise e é só depois que ele começa a babar é que a crise realmente começa e então ele relaxa a musculatura e a convulsão se completa.

Espantado com uma explicação tão clara e objetiva de uma crise de epilepsia, perguntei a ele como sabia de tudo aquilo e ele me respondeu que tinha um irmão que sofria do mesmo mal desde os três anos de idade e me deu o nome correto de dois medicamentos que ele tomava regularmente ao longo da vida.

Ao chegarmos na loja, para minha surpresa, encontramos o que eu buscava e o proprietário nos disse que eram dois os bichos de que tinha medo, ratos e cobras.

– Rato porque mata, a urina dele pode matar um homem – disse.

– É – completou meu acompanhante – a leptospirose é coisa séria.

– Mas cobra, nem, tanto – acrescentei eu – se chegar a um hospital em duas horas, o antídoto ainda faz efeito.

Pouco depois, quando atravessamos a rua, Edson ponderou comigo:

– Mas se for na femoral, não tem jeito. Se pegar ali, infesta o corpo rápido, pois essa é uma artéria principal. E o senhor sabe, ela não admite costura.

Realmente, assim era, e eu cada vez mais intrigado ficava com as considerações ajuizadas dele. Resolvi parar numa doceria para tomarmos um cafezinho e quando sentamos numa mesinha, ele perguntou, sabendo que eu havia passado por uma cirurgia cardíaca:

– E a sua saúde, como está? Melhorou?

– Sim, mas às vezes tenho alguns probleminhas.

– O que o senhor fez? Foi uma safena, de mamária e coronária?

– Não – respondi – troquei uma válvula.

– A mitral? – perguntou.

Mas que diabo, pensei. Respondi que sim e ele prosseguiu:

– A válvula mitral não é tão forte como a tricúspide. Essa sim, leva o sangue para todo o corpo, a mitral empurra apenas para os pulmões. O coração tem dois lados, com os átrios e ventrículos. Nessa cirurgia eles tiram o coração do peito e colocam tubos para a circulação artificial.

Intrigado e estimulado por aqueles conhecimentos, perguntei novamente:

– Mas como é que você sabe tudo isso?

– Já vi – respondeu ele arregalando os olhos e arqueando ainda mais as sobrancelhas com assombro – um tio meu, eu presenciei a cirurgia dele, colocou pontes mamárias e  coronárias.

Protestei que nesse tipo de cirurgia não se tirava o coração do lugar.

– Mas o dele tiraram – respondeu peremptório e grave – com aquela expressão assombrada – e no fim eles aplicam um choque para fazer o coração bater de novo.

Aí perguntou quais eram os sintomas e se eu havia levado uma vida descuidada e quando respondi que havia sido uma febre, ele completou:

– Reumática?

Concordei e disse que passou despercebida, e ele completou:

– E se tivesse percebido, o remédio era tão simples: benzetacil! um antibiótico.