O Charlatão

Tudo começou com a sogra. Vai lá, que ele te cura, milhares já foram. Vai. Depois foi o colega. Oh, conheço, ele tem o dom, é poderoso, vai lá. Mas eu não acredito, pretextava o crente, de que adianta? Não faz mal, acreditando ou não a graça se manifesta. Ele é muito bom. Mesmo sem fé? Sim, isso não importa. A sogra voltou a falar no assunto: olha, eu já marquei, às dez horas, depois de amanhã. E ele acabou indo.

Havia uma pequena multidão se acotovelando na sala principal, a maioria sentados, pois, afinal, eram doentes. Numa pequena mesa ao canto, um sujeito de avental branco, tirou do bolso umenorme maço de dinheiro como se fosse um cobrador de ônibus e começou a mexer dele sem se importar com  os que estavam a sua volta. Na sua frente, uma pilha de santinhos. Ele era o arrecadador de doações espontâneas. E era o filho do homem. As pessoas eram chamadas por número, às vezes duas ou três ao mesmo tempo, para os cômodos interiores da casa. De repente, uma mulher de branco – uma enfermeira – aproximou-se do crente que havia chegado e propôs-lhe que puxasse uma oração da Bíblia. O crente declinou sem graça, dizendo que não era religioso e foi olhado com desconfiança pela mulher, mas disse-lhe que não fazia mal, que não tinha importância. Outra mulher puxou a reza e começou uma latomia na sala de espera. A certa altura, a mesma enfermeira voltou a falar com ele, já amigável, quase maternalmente. Você é fulano? Sim, sou. O genro de dona sicrana? Sim, sou. Então, meu filho, venha, que vou lhe passar aqui pelo lado. E levou-o até a antessala cirúrgica. Encostado na porta, o crente olhava para um homem que era atendido pela esposa, suando em bicas e com a fisionomia desfeita. Um instante depois, a porta da sala se abriu e saiu uma velha magrinha que desfaleceu nos braços da enfermeira que a esperava e a transportou a outra cadeira. O lugar estava cheio de cadeiras vazias. O crente estava impassível.

O charlatão estava a postos, com seu avental branco. De olhos fechados atrás de uns óculos enorme de armação grossa e os braços abertos, como se estivesse fazendo uma oferenda, aguardava o próximo paciente segurando uma espora de cortar pastéis em uma das mãos. Era o seu instrumento cirúrgico. O crente entrou logo depois, entregando à enfermeira que estava do lado dentro um pedaço de papel no qual estava escrito o nome da doença ou órgão atingido. O crente perguntou se não devia entregar o papel a ele e a enfermeira respondeu com rispidez que ele já sabia. Ela era uma alemoa alta e forte e fazia questão de deixar claro que era do tipo que não gostava de perder tempo com detalhes. E suas bochechas vermelhas eram um aviso de que não tinha muita paciência. O crente, num atrevimento que não caiu bem, ele mesmo reconheceu depois, inquiriu a enfermeira, questionando, então a utilidade daquele papel, no qual estava escrito ‘coração’. O charlatão continuou impassível. O crentepensou que aquela era uma parte que realmente precisaria ser melhorada, mas logo se deu conta de que o charlatão não devia ter gostado da sua observação e não teve um bom pressentimento.  No fundo, todo mundo crê, isso sim passou pela cabeça do charlatão. Nem precisou falar nada. A enfermeira empurrou o crente para cima de uma maca, levantou-lhe a camisa até o pescoço com brusquidão e disse-lhe para pensar fortemente em Jesus. O crente atrapalhou-se, pois não cria decidiu pensar em seus filhos, era melhor colaborar com algum pensamento positivo. O charlatão, subitamente, precipitou-se sobre o crente e num movimento rápido do cortador de massa de pastéis, fez-lhe um profundo e doloroso risco na pele, assustando o crente, que quis olhar para a barriga mas teve a cabeça mantida contra o travesseiro pela mão grande da enfermeira. Ele me cortou, e estava alarmado. Em seguida, um forte cheiro de iodo impregnou a pequena sala e então o crente desvencilhou-se e viu que tinha uma linha de esparadrapo na barriga e embaixo dele uma bolinha de algodão embebida em iodo. Acabou, será?  Um forte hematoma de uns vinte centímetros riscava-lhe a barriga. Não esperava por nada daquilo, e sim um momento de espiritualidade, uma empostação de mãos no peito, algo assim, uma espécie de possibilidade. O charlatão voltara para a sua posição inicial e a enfermeira lhe mandou embora, simplesmente abrindo a porta, colocando-o para fora. O crente estava abismado, pois tinha um problema cardíaco e fora operado no abdômen. Aquilo tinha sido pior do que imaginava. Sentiu-se envergonhado. Na saída, outra enfermeira recebeu-o, a modo de ampará-lo: não está fraco? Não. Não está tonto? Não. Não está sentindo enjôo? Também não. Ah, então é bom sinal. O crente foi levado a uma cadeira emandado ficar, para se recuperar da cirurgia. Deve ser uma espécie de UTI isso aqui, ou ambulatório. Ficou ali sentado, junto à porta, enquanto via um outro paciente  sair aos pedaços da sala cirúrgica. O homem, um cinquentão baixo e gordo, com a barba por fazer, um homem simples, segurava-se nas paredes, vomitou ali mesmo e pálido e suando copiosamente, foi arrastado pela mulher e uma enfermeira até uma outra cadeira. Aquela deve ter sido uma cirurgia mais complicada, pensou. Não está sentido um cansaço forte? E era a primeira enfermeira que aparecia e lhe perguntava. Não, não estou. Pensou bem e achou que estava sendo mal educado, já que não havia pago um tostão e ela era tão solícita. Devia dizer-lhe que sim, para que ela respondesse que era o efeito da cirurgia. Ela esperava por isso. Isso lhe faria bem. Mas ela acabou dizendo de qualquer modo, que era melhor ir para casa e deitar-se, por 24 horas a fio, colocando uma toalha branca sobre a barriga, pois esse era o procedimento pós-operatório de rotina. O crente não gostou dessa parte, que considerava totalmente desnecessária, mas com o que lhe restava de boa vontade, decidiu obedecer. Em casa, deitou-se com a toalha na barriga. Pela janela do quarto escutava o fervilhar dos grilos e insetos no meio da manhã de verão. Permaneceu assim por cinco minutos. Levantou-se, arrancou o esparadrapo e olhou desolado para o risco inchado na pele. Colocou a camisa, e foi trabalhar.Aporrinhava-lhe ter que dar satisfações à sogra.