O filme RASHOMON faz parte de um projeto organizado pela ESMESC – Escola Superior da Magistratura de Santa Catarina, que versa sobre as relações entre Cinema e Justiça. Os filmes tem sido selecionados por mim, assim como os textos que são distribuídos aos presentes nas exibições da obra, como é o caso abaixo:

 

Ficha técnica

 

Gênero: Drama

Direção: Akira Kurosawa

Ano: 1950

Roteiro: Akira Kurosawa, RyûnosukeAkutagawa, Shinobu Hashimoto

Elenco: Daisuke Katô, Kichijirô Ueda, MachikoKyô, Masayuki Mori, Minoru Chiaki, Noriko Honma, Takashi Shimura, ToshirôMifune

Produção: Minoru Jingo

Fotografia: Kazuo Miyagawa

Trilha Sonora: Fumio Hayasaka

Duração: 83 min.

 

Rashômon

 

Ryunosuke Akutagawa nasceu em Tóquio, em 1982 e viveu durante algum tempo lecionando inglês e traduzindo textos literários. Casou e teve 3 filhos. Escreveu a coletânea de contos Rashômon aos 23 anos, obtendo logo o reconhecimento internacional. Foi autor de muitas narrativas curtas e novelas, sendo considerado o pai do conto japonês. Em 1927, depois de passar por períodos de grande instabilidade emocional, suicidou-se, aos 35 anos.

 

O filme de Akira Kurosawa, de 1950, com o mesmo titulo, é baseado em sua obra. Esse filme foi um marco do cinema japonês e pode-se dizer que foi através dele que o ocidente tomou conhecimento do cinema daquele país e foi o filme que inspirou a criação da modalidade de Melhor Filme Estrangeiro na festa do cinema americano, o Oscar.

 

Esse filme, todavia, não correspondente filosoficamente, à obra de Akutagawa, na qual se inspirou, embora apresente o mesmo tom sombrio que se encontra no texto, isso provavelmente por conta das diferentes visões do mundo que possuíam o escritor e o diretor. O filme, na verdade, é a fusão de dois contos, Rashômon e Dentro do Bosque, e do primeiro o diretor utilizou apenas o portal (Rashômon) e omitiu a sinistra história que ele conta e que é a seguinte:

 

Um servo desemprego abriga-se da chuva debaixo do portal e reflete se deve morrer de fome ou tornar-se um ladrão. Na época em que se passa a história, o país passava por grande miséria e até os mortos estavam sendo abandonados na galeria do portal, onde o servo decide subir e acaba encontrando vários corpos em decomposição e uma velha esquelética que arrancava os cabelos das cabeças putrefatas dos mortos para fazer perucas. Naquele momento, o servo decide que não morrerá de fome. Como se vê, uma visão nada favorável da natureza humana.

 

O conto Dentro do Bosque, que é o que inspirou o filme, igualmente, a meu ver, apresenta uma visão muito pessimista do homem: embora se trate aparentemente de descobrir-se a verdade acerca de um crime (os depoimentos são prestados em um inquérito), o que se vê são vários relatos distintos acerca do mesmo fato, mas não apenas distintos sob a ótica de ponto de vista, em que há os conflitos de percepção, a atenção específica a partes do todo, às idiossincrasias pessoais, que levam à percepção dos fatos de uma perspectiva diferente. Fernando Pessoa tem um pequeno e famoso trecho em que relata sua confusão que tem origem em uma situação que tem esses ingredientes e que ele relata assim: “Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro de um outro lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.” Essa é uma situação reconhecível, sobre a qual podemos fixar nosso próprio juízo de valor. O que se vê no filme é diferente, são visões que se excluem reciprocamente, cada um conta uma história diferente do que se passou, essencialmente diferente e não porque cada um tivesse um ponto de vista particular do caso, mas por razões particularmente egoístas, tornando a busca pela verdade algo completamente inalcançável, sem que os critérios processuais consagrados da plausibilidade ou da verossimilhança pudessem ser de qualquer utilidade.

 

Assim, o lenhador omite que foi ele quem, ao encontrar o cadáver do samurai, furtou o punhal que estava cravado em seu peito, o que é denunciado pelo morto através do médium; o ladrão, estuprador e assassino, consumido pelo orgulho de sua infâmia, sabendo que sua sentença de morte era uma questão de tempo, confessa ter matado o samurai para aumentar a fama de sua história criminosa; a mulher confessa ter matado o marido para esconder sua desonra e depois fraqueja ao tentar tirar sua própria vida; o samurai, por não suportar viver com o abandono da mulher que vai atrás do ladrão que a possuiu, suicida-se e sente a mão do lenhador, num ato final, a furtar o punhal com o qual havia se matado. Cada qual conta a história que melhor se lhe afeiçoa e essa criação da verdade só pode gerar perplexidade. Afinal de contas, há uma verdade?

 

O diretor, como disse, procura encontrar uma saída – manter a fé nos homens – com o choro de um bebê abandonado no portal, mas o escritor não deixa espaço para esse otimismo nos textos em que se baseou o filme, para ele, simplesmente, não há solução.

 

Enfim, o propósito do filme, mais do que mostrar as dificuldades que a busca pela verdade pode apresentar – embora ilustre perfeitamente o que se passa diariamente nas audiências cujo propósito é a reconstrução de um fato -, utiliza o incidente apenas como pretexto para mostrar a complexidade de nossa natureza e nos faz refletir sobre como devemos lidar com isso.

 

18/11/2013.

Helio David Vieira Figueira dos Santos