FÉ À PROVA

Fé à prova.

Hoje, ao caminhar pela praia, topei com dois jovens, perto dos 30 anos, conversando na areia deserta. Ao passar por eles, escutei, de raspão, um comentar para o outro que “naquele tempo eles iam rezar nas sinagogas dos judeus e eram espancados” e o resto se perdeu. Esse trecho de diálogo não era muito comum naquela altura do dia e entre os dois amigos, e logo me veio a ideia de que se tratava de dois crentes, ou de apenas um, enchendo a paciência do outro numa manhã tão bonita. Na passada em que ia, continuei, mas quando fiz o retorno uns cinquenta metros adiante, já escutei a latomia de um deles, justamente o que eu apostaria que era o indiferente na conversa. Este caminhava com os cotovelos junto ao corpo e as mãos espalmadas em ângulo reto, numa posição típica de quem ora e se entrega numa conversação particular com o divino, no caso, Jesus Cristo. Ao cruzar com ele novamente, ele gemia naquela atitude característica, implorando as graças e a benevolência de Cristo, que tratava sempre por Senhor Jesus, nosso Deus, que morreu, mas ressuscitou e que deveria fazer com que as pessoas despertassem para a fé, e repetia incansavelmente o nome de Jesus, banalizando a sua exaltação com frases feitas e lugares comuns, utilizando aquele tom monocórdico característico que todo religioso que ora em público costuma entoar. Enquanto isso, o outro, o que comentara dos castigos aplicados pelos judeus, caminhava de um lado para o outro como um animal dentro de uma jaula, dando três passos para um lado e retornando três passos para o outro, enquanto exaltava o Senhor em voz mais baixa. Este caminhava com os braços estendidos e olhando para o chão, enquanto o outro gemia de cabeça erguida e olhava para o céu, estendendo suas mãos para o alto. É claro que não vi tudo isso apenas numa passagem; meu percurso era de 400 metros pela areia e esse louvor começou logo que cheguei e quando já havia feito 3200 metros e passado por eles 6 vezes, eles ainda continuavam orando.

A certa altura, um daqueles cachorros vira-latas de praia de porte respeitável e dentes afiados como os de todos os vira-latas, aproximaram-se dos dois e, possivelmente incomodados pelo inusitado da cena – já que eu passava por eles com frequência e era ignorado como se fosse invisível – comeram a rosnar e aproximaram-se dos dois ameaçadoramente. O louvorista exaltado interrompeu sua arenga para defender as canelas e começou a enxotar o cão, e tão logo conseguia uma brecha no ataque, pedia a Jesus que mandasse o animal embora, que se fosse tentação do diabo, o poder do Senhor era maior, Aleluia. O cachorro, que não entendia a língua, avançou com fúria e enfiou os dentes no calcanhar do crente, que gritou de dor e esqueceu por completo a compassividade de sua conduta e saiu à procura de uma pedra para jogar no bicho, enquanto seu parceiro de rezas aumentava o tom das preces e e invocações de interferência divina, até que outros dois cães, excitados por toda aquela barulheira de latidos, gritos e orações, vieram em socorro do seu companheiro de mordidas e os dois religiosos não tiveram outra alternativa senão se defenderem como pudessem, jogando areia nos animais, gritando e soltando palavrões, correndo daqui para lá, saltando, dando voltas, enquanto os cachorros pareciam estar ganhando o dia com toda aquela diversão.

Vi tudo isso à medida em que me aproximava e estranhamente os cachorros se aproximaram de mim, deram uma boa cheirada à distância e me deixaram em paz, voltando para os outros dois, que julgaram que o demônio os havia dado uma trégua, mas foi só reiniciarem a arenga que os bichos arreganharam os dentes e reiniciaram o cerco, forçando os filhos de Cristo a saírem da praia e voltarem para a estrada, onde foram deixados em paz.

Quando terminei minha caminhada, passei ao lado do mais exaltado, que já estava agradecendo a Jesus por mais aquele dia, pela Graça recebida, por permitir conhecê-lo e afastar deles o Cão e supus que a coisa estava acabada também para eles.

Não sei por que, mas tudo aquilo me pareceu não um louvor a Deus, mas um ensaio de dois aspirantes a pastor de igreja pentecostal e que o castigo não foi coisa do Diabo, mas sim um desses infortúnios que nos acontecem às vezes e que nos expõem a um ridículo completo e nos enchem de vergonha. De minha parte, perdi a fé nos moços, pois bonito seria se tivessem suportado os caninos nas canelas estoicamente, para provar ao Senhor Jesus que a provação era um teste de fidelidade, assim como Jó sofreu devotamente os castigos do diabo (com a aprovação do Senhor).