NOITE

NOITE

 

Havia um rebuliço enorme na casa. Gritos, longos e breves, histeria, gemidos horríveis e o som das coisas se quebrando. Era final de noite de domingo na residência do senhor D. e ele a  senhora D. estavam comemorando com a costumeira sem-cerimônia. Do outro lado das paredes, os vizinhos interromperam seus afazeres e escutavam, com um misto de curiosidade e apreensão.  Até ali, nada extraordinário acontecera.  Pelo barulho, umas peças de louça jogadas contra a parede, uma esquiva rápida; um rumor maior, por certo  um desequilíbrio e um falso apoio no móvel da sala. As vozes eram indistinguíveis, uma trepando por cima da do outro. No fim das contas, os vizinhos já sabiam que apenas se cumpria o ritual de mais um final de domingo na casa ao lado.

Aos poucos a confusão acalmou-se e reinou o silêncio. O vizinho da direita aumentou o som da TV e a mulher recomeçou aos poucos a bater a massa do pão. O casal da esquerda voltou a entreter-se no jogo de cartas, na medida em que conseguia concentrar-se nele. O que acontecera na casa do centro não lhes interessava além da conta.  No dia seguinte, todos se cumprimentariam e ninguém teria que dar explicações. Assim era melhor. Quando a briga fosse nas casas das pontas seria o mesmo. A maledicência se consumiria entre as paredes. E tudo se arranjava.

Mas naquela noite, a senhora D. permanecia sentada no sofá, olhando perdida para a tela negra do aparelho de TV desligado. A seu lado, na outra peça do estofado, estava o senhor D., em posição grotesca, como se resvalasse para o chão com a barriga para cima. Nenhum dos dois falava. Na penumbra da sala, o senhor D. acabava de morrer. Entre as dobras do sofá, uma imensa poça de sangue escuro havia se formado do pequeno corte onde a senhora D. havia enfiado a lâmina com força, até saber que tinha atravessado o pescoço dele. Ela segurava a faca frouxamente entre as mãos postas sobre os joelhos. Teve que empurrá-lo contra o sofá quatro vezes, de onde ele tentava fugir, como se pudesse afastar a própria agonia e morte antes que a escuridão começasse a turvar-lhe os sentidos. Depois,  seus grunhidos se tornaram mais roucos e seus movimentos foram ficando lentos e ele se afogou no próprio sangue. Então a sra. D. puxou a faca devagar e em silêncio e sentou-se ao seu lado.

Agora estava ali, sentada e só sentia o cheiro forte de álcool e do sangue farto do marido que empapava o sofá e pingava lento e grosso no chão. Não conseguia lembrar o que começara tudo aquilo. Já haviam tido tantos finais-de-semana semelhantes… Lembrava-se de que gostava muito dele. Só isso. Esforçava-se debilmente no seu torpor, mas a iniciativa não lhe vinha. Só sentia aquele cheiro e a textura do cabo de madeira em sua mão.

E ficou ali sentada, olhando para o negrume da tela da TV e  a escuridão olhava para dentro dela e achou que era assim mesmo que devia ser.