BEIJO PROIBIDO

BEIJO PROIBIDO

 

Nem tudo o que é parece e às vezes as coisas são tão confusas que nem se sabe bem se elas são ou se elas apenas deviam parecer. Quem sabe o sentido das coisas não exista em si mesmo, esteja apenas dentro da nossa cabeça, quantas vezes disso já não tivemos prova. Deveriam certas coisas repetir-se, como num filme que vemos vezes sem conta até compreender-lhe o sentido. Aquele beijo que até hoje me queima o canto da boca, o calor daqueles lábios carnudos que não arrefece, aquela pressão deliberada e já faz tanto tempo e parece mais vivo e quente eu o sinto quanto mais distante fica a memória dele. Estamos tão habituados a fazer as coisas de acordo com o momento e as circunstâncias, que nunca nos damos conta de que o momento e as circunstâncias muitas vezes são meros coadjuvantes sem fala, expectadores das coisas, um nada, e não estamos prontos para compreender que as circunstâncias não significam aquilo que parecem significar e que fazemos delas o que bem quisermos ou o que aquilo dentro de nós, que compreendemos menos ainda, determinar fazer. Forjam e inspiram, contra a sua vontade, o ato de que, de criadores, passaram a mudas testemunhas. O que inspira uma vontade e que tipo de vontade só vê em sua frente o objeto de seu desejo, eis aí algo que as circunstâncias nunca compreenderão e devem contentar-se a testemunhar como algo trágico pode inspirar o seu contrário e que tipo de desejo é esse assim nascido, de onde vem e onde estava, como se portou durante todo esse tempo? Pensando bem, isso não importa, importa sim é que esse desejo correspondeu a uma vontade que se mostrou e sabemos que certas vontades só se manifestam assim, intempestivas, se ainda estavam vivas e dando pontapés. Acho que foi isso o que aconteceu naquele dia, ao menos gosto de pensar que foi assim, que não me enganei e que é por isso que minha boca não esquece o calor daqueles lábios que nunca beijei e que tentaram se apertar contra os meus, que me beijaram, quentes e macios, enquanto eu tentava desviar os meus. De tudo, só tenho certeza de que ela veio até mim, linda, na abrasadora beleza da maturidade, com seus grandes olhos castanhos marejados de lágrimas e de sua boca, que me beijou não como um consolo, mas como um recado inconfundível. Sei que essas certezas são falíveis, afinal, comecei a escrever sobre isso mesmo, mas ninguém pode viver sempre em dúvida, isso também é uma verdade. Mal tive tempo de desviar, claro, percebi, esse é o tipo de coisa que se percebe, então percebi, salvou-me a tristeza do momento, inspirou-a o mesmo momento, uma mesma dor que gera sentimentos contrastantes, mas não opostos e nem antagônicos, pelo contrário, talvez nada seja tão motivador para o desejo quanto a noção da morte. Hoje eu a teria apertado contra mim e correspondido aquele beijo, que não mais teria fim, molhado de saliva e lágrimas, sentido, intenso, eu te amo, sempre te amei e ai de mim, não vou mais ter sossego, quanto tempo já passou e quanto mais passará? Basta olhar à nossa volta, todas as testemunhas não se importam mais com o tempo. Agora não sinto isso, quando fujo dos teus lábios, não sinto isso que estou te dizendo, mas um dia sei que vou sentir, assim como você me beijou na boca tantos anos depois que esse beijo deveria ter sido beijado, recebido e retribuído muitas e muitas vezes. Mais cedo ou mais tarde vou sentir tua boca na minha e agora, entretanto, não te digo, não penso nisso, apenas timidamente tento afastar meus lábios sem muito sucesso. Não vou me desculpar pretextando que mal havia acabado de enterrar meu pai, que uma imensa tristeza se apossava de mim enquanto eu me esquivava sozinho entre os túmulos. Naquele momento era outro eu, ou melhor, era eu num outro momento, que é nisso mesmo a que a vida se resume e você era tudo o que eu precisava, só que eu não sabia ainda, ou não me lembrava, ou me queimava a ponta ardente daquele cigarro, como o farol do esquecimento, que não esqueceu a você, que surgiu direta para mim e me abraçou e beijou dizendo Aqui estou, aqui me tens, o que vais fazer, compreendes este beijo. De nada disso sabia então, deveria saber, deveria ter entendido. Hoje, mais do que nunca, desejo segurar aquele beijo, prender a tua mão na minha, acariciar-te em silêncio, como então, na simplicidade de nosso corações adolescentes, sentar na beira da cama onde ficavas enrolada nos cobertores  e ficar ali ao teu lado, com nossas mãos se tocando, em silêncio e dizendo tudo que tinha que ser dito, nada fazendo que merecesse a censura muda dos olhos duros de nossa tia pela fresta da porta, segurando na mão, não outra mão, que essa nunca encontrou, mas um cigarro de palha, cuja ponta em brasa ardia tanto quanto o seu olhar, anunciando a nós, primos apaixonados, a injusta e dolorosa regra da proibição.