MUTATIO CAPARUM

Mutatio Caparum

 

A assessora do magistrado, depois de se desembaraçar de um monte de processos que trazia consigo, colhendo assinaturas e dando breves explicações, disse ao magistrado seu chefe:

– Doutor, o rateio da toga vai ficar em cincoenta reais.

– Cincoenta reais, que exagero, o último de que participei saiu por cinco!

– Ah, mas é que daquela vez foi no fórum central e aqui é no continente – explicou a assessora – o rateio é feito por fórum e os juízes aqui são apenas cinco e o promovido não paga.

– Putz, que exagero, quem tinha que dar essas togas era o tribunal, já não dá certos agrados, que mal ia fazer dar uma toguinha de acrescentamento?

– Ah, doutor – ponderou a assessora –  mas quando for a sua vez o senhor também vai receber uma toga de presente.

– Mas até lá eu já vou ter pago umas três togas inteiras. Eu preferia era receber uma toga de brinde, já que o uso dela é obrigatório. Tá bem, tome aqui.

A assessora sorriu sem jeito e o chefe tirou a carteira, separou uma nota e passou-lhe, ajuntando:

– Vai, oncinha querida e estimada, que caço durante o mês inteiro, pra me sair do bolso assim, tão súbito como se saltasses sobre uma presa. Tua pele tão bonita e cobiçada, se soubesses, vai virar peça funérea e apavorante, da qual não há mortal que não lhe desvie os olhos de medo e insegurança que a sua arrogante inconstância representa. Vai, minha adorada, cumpre o destino que te estava reservado, sair das brenhas, passar pelo meu bolso e transubstanciar-se na negrura da justiça, vai.

Desta vez, a assessora riu com gosto, pegou a cédula com delicadeza e saiu da sala.

O juiz, tão logo ficou só, colocou o cotovelo sobre a mesa, apoiou o queixo na mão e pôs-se a refletir sobre o acontecido e se pudéssemos ouvir seus pensamentos, assim viriam eles:

– Não é pelo dinheiro, que cincoenta contos não é nada, é só virar-lhes as costas e pronto. É pelo desperdício desse faz de conta, justamente quando vamos deixar de ser colegas, quando vou passar a ser um apenas um bom juiz é que tenho que ficar de mimos, mimo que ele vai receber já louco para arrumar as caixas e dar o fora daqui e depois largar o peso em cima dessa toga nas sessões. Pensando bem, é assim que são as coisas, novos ares, novas amizades, o que os olhos não vêem, o coração não sente, ficamos nós por aqui, com essa ponta de ciúme e frustração de não ser a nossa vez, que vai ser coisa linda quando vier, aquele guascaço no peito, ai, aguenta coração até a publicação do ato, que é a agonia mais tola e certa que já ouvi, pois até lá serei um mero juiz, pode ainda acontecer uma merda qualquer, um mandado de segurança, um pedido de providências no CNJ, uma liminar, um atropelamento ou um derrame, Deus me livre e aí acabou-se o homem (quanta gente não conta com uma coisa dessas, nem é bom pensar que é puro agouro, ah, esse vai cedo, sai, pensamento de bosta). Vem o dinheirinho, mas nada de sessão solene, de troca de toga, é só coisa de folha de pagamento e nada mais, exceto um vai descansar e curtir a vida, que vida? Todo torto e babando, puxando uma perna ou coisa pior…

Estava o juiz nessas cismas quando lhe entra sala adentro um colega que também não seria promovido e logo alastrou-se numa cadeira:

– E então – perguntou-lhe (não fazendo caso aqui quem perguntou a quem, pois era pergunta certa e transitada já em julgado) – já pagaste o dízimo? O homem já disse que quer a toga de seda e não de cetim.

– Eu já – respondeu-lhe o outro – e não foi com cheque pré datado e sim com dinheirinho de contado, que saiu de meu bolso arranhando a carteira, mas enfim, ou era isso, ou  ia virar uma cagada no almoço de domingo. Feliz sina do bichinho, hás de convir.

– Eu também já despachei a criaturinha de Deus, que não foi de cheque e sim de estralada de novinha a estampa, sejam os anjos servidos dela e que ele esvoace como um ator trágico na berlinda do Pleno, quando descer da tribuna para ocupar o seu lugar no panteão. Vais na posse?

– Não, nunca fui e não vou agora. Vou ali dar um abraço nele  pronto. Nossa presença lá é dispensável, na verdade, o deslumbramento é tal que a recepção dos novos colegas, desembargadores, recebendo-o entre si, Vem que agora és dos nossos, é nisso sim que os sentidos dele vão estar ligados. Pra nós, é aquele  muito obrigado já sorrindo para o lado, onde está um graduado de toga prendada e comenda no peito.

– Coisa linda, né, zé? Não sei como tu não te animas. A solenidade castiça, as reverências discretas, nada de abraços apertados e tapas retumbantes nas costas, daqueles de soltar o catarro, o caminhar marcado e firme, seguro e desapressado até o seu assento, já com a comenda do mérito no peito, ouvi dizer que o bispo, Dom Castanheira, vai estar presente. Olhe, deve ser coisa de arrepiar o coração, se é que um coração se pode arrepiar, então fiquemos pelos cabelos, ver uma autoridade eclesiástica daquele calibre no centro do Pleno, usando sua estolinha.

– É – ponderou o outro – vai humilhar as togas, tanto mais que são em tão grande número, a coisa já está banalizada, chega um bispo e arrebenta com a festa. Imagine só se o homem vem de traje de gala e sapatinho vermelho, aí sim, vai ser um esconjuro. E por falar nisso, por essa época os bispos já fizeram o seu mutatio caparum?

O outro ficou um pouco mais sério porque não gostava de troçar das coisas sagradas, quer dizer, gostar gostava, mas tinha medo das consequências e não se perdia nada em guardar respeito. O trocista, percebendo a mudança de humor do outro, já arrematou:

– Dizem que Deus consegue ver o que está escondido no coração dos homens…

– Amém, disse o visitante (que agora já sabemos quem começou toda essa conversa), mas quero te dizer que a mutatio caparum não se aplica a bispos e só a cardeais, e ocorre na chegada do verão, quando eles trocam os forros de lã de suas capas por seda, e não do outono, ou se ocorre por agora, pois um dia tem que ocorrer para poder ser trocada de novo, é claro, é coisa que me escapa. Também não sei porque se comemora justamente a troca da lã pela seda e não o contrário. Seja como for, o certo é que não se aplica a bispos.

– Bem, se é assim, vamos ter que esperar a nomeação de ministro do STJ. E, meu filho, fico condoído de sua falha, parece que andaste gazeando as aulas de religião ou do pré-internato, pois a mutatio ocorre é por conta do dia da Ressureição de Cristo, data que o vulgo conhece como a Páscoa. Daí essa coisa de sedas. No nosso caso, o significado pode ser o da troca do fardo da vara pela maciez do couro da cadeira de alto espaldar e das reverências e continências a não mais caber.

– Será? Pode ser, tem mais a ver com o significado cristão, pois não tem importância episcopal uma simples troca de capa por causa do calor, senão teria também no inverno, mas todo esse debate só serviu para aumentar minha fome e eu vim aqui para te buscar para o nosso almoço semanal e tenho uma novidade, mantida em segredo até agora.

– Qual?

– Hoje o pagamento cabe a ti.