NEBLINA

Neblina

Às vezes, é melhor não fazer nada. Lenta, a dor passa, assim como uma nuvem pesada. Hoje não consigo me concentrar em nada e estou deitado em minha cama neste quarto úmido e mal ventilado de hotel. Não escuto o barulho da rua porque estou no fim do corredor e pela janela basculante apenas me vem o som do trem que passa de madrugada, levando um comboio de vagões de soja para o litoral. Penso em dar uma volta mas desisto. O comércio fecha ao meio dia e tudo silencia às oito. Apenas uns botecos ficam abertos jogando na rua uma luz mortiça e  onde alguns sujeitos tomam cerveja e cachaça e jogam dominó antes de irem para casa ou para qualquer outro lugar. Depois vem a neblina e a rua se cobre da névoa espessa que amortece os sons da noite e só vai levantar por volta das dez horas da manhã seguinte. Ia acabar pegando um resfriado sem que valesse a pena. Ontem havia uma barata na minha cama. Enorme e gorda, bicho mais nojento não podia existir. Repulsivo era ter que matá-la, escutar o estralo e sentir  sua carcaça se esmagando sob a sola do sapato e espirrando pelo chão a massa amarelada de seu interior. Mas o serviço tinha que ser feito e depois de morta ela pareceu bem menor, coisa esquisita. Comprei hoje cedo uma lata empoeirada de  Mafú no mercado da esquina e borrifei na janela, porta e ralo do banheiro porque sabia que o gerente do hotel nada poderia fazer. Pelo preço da diária, estavam implícitos certos inconvenientes. Agora ainda sinto o cheiro do veneno, que impregnou no carpete gasto e manchado do quarto. Não tenho sono e fico deitado olhando a marca que ficou no chão onde pisei a barata. Não penso em nada, apenas olho e espero que passe, que fique tarde, que a madrugada se faça sentir e que meus olhos ardam e o sono venha. Vai demorar, ainda é cedo. Li um dia desses que ainda não se descobriu porque os seres vivos precisam dormir e pensando bem é curioso mesmo que isso aconteça. Dormir é tão natural e também tão estranho… Aos poucos minha letargia volta e olho para o teto e fixo o olhar na lâmpada acesa, deixando que a luz impregne minha retina. Fecho os olhos e continuo enxergando um ponto avermelhado como o sol do crepúsculo, que aos pouquinhos vai sumindo e deixando apenas as sombras da noite. Abro os olhos, vem a vontade de fazer algo a respeito dessa condição. É preciso agir, mexer-me, produzir, gastar essa energia que se sacode dentro de mim, como um cavalo que corre súbito no pasto e pára. Não me mexo, contudo. Penso em algo, mas nada vem. Tenho consciência de que minha atitude é um desperdício. Não estou abatido, apenas perplexo. Não sei o quê fazer a respeito. Penso que estou hipnotizando a mim mesmo. Ficar olhando a vida inteira para um ponto no vazio e não poder fazer nada. Decido, enfim,  executar exercícios de alongamento, que são bastante doloridos e a dor desperta o cérebro. Forço o mais que posso e canso depois de alguns minutos. Pronto, estou alongado e agora? A lâmpada no teto me chama de novo e torno a fixá-la. Já estou assim há um bom tempo. Viro de lado e me aporrinho. Se eu pudesse me desligar como aquele interruptor perto da porta… Levanto e apago a luz. Jogo-me pesadamente sobre a cama e resolvo esperar, nada mais me resta. De repente, escuto um barulho de asas e o leve bater contra o compensado do guarda-roupas. Fico arrepiado no escuro, já sei o que é. Aquele bicho intoxicado pelo veneno vai acabar caindo na minha boca. É hora de trabalhar.