O PROCESSO DEFUMADO

Dois juízes-corregedores de nossa terra, acompanhando o responsável por suas nomeações, deslocaram-se até outro estado da federação para participar de um congresso afeto a sua área de atuação. Percebeu o leitor que utilizei o verbo deslocar e não o simples e direto ir, a razão é simples, um magistrado é um órgão do poder judiciário, com competência e lotação definidas, afora a inconteste autoridade de que está investido. Nessa posição, ninguém em são juízo pode dizer que um magistrado vá a algum lugar, ele evidentemente desloca-se, levando sempre consigo esse cangaço de prerrogativas e obrigações.
Esses três juízes, depois de encerrado um ciclo ameno de palestras, por sugestão do chefe, resolveram seguir ao fórum da capital do estado onde se realizava o evento, acolhendo o convite do diretor do foro, Dr. Adelício Bomabrigo, que os havia conhecido no intervalo do cafezinho.
Lá chegando, foram recebidos logo pelo doutor Adelício, um quarentão de 150 quilos, jovialíssimo, cujo peso exagerado só era ultrapassado por sua cordialidade e espontaneidade, que evidenciam a sua alegria de viver. Levou os nossos colegas pela mão a mostrar-lhes o prédio, apresentar outros juízes, dar explicações e percorrer os corredores como se fosse um guia turístico, sempre com um sorriso nos lábios e de vez em quando soltava uma gargalhada por algum comentário que ele mesmo fazia, sacudindo todo o seu enorme corpo, ato esse que parecia fazer parte de sua felicidade.
Para o fim, deixou o seu próprio cartório, apregoando aos servidores a visita que estavam recebendo e passou a mostrar a organização dos escaninhos, paras isso aqui, para aquilo, acolá, o fluxo de trabalho e o apuro das mesas e daí em diante. Um de nossos juízes, homem muito discreto e saudável juízo, para mostrar-se cortês, apanhou um dos processos ao acaso e deu-lhe a folhear ao acaso e foi quando sentiu que do interior dos autos exalava um sutilíssimo aroma, um raro e exótico perfume levemente defumativo, que atribuiu ao extravagante gosto de alguma servidora (ou servidor), de usar perfume nas mão. Apanhou outro e deu com a mesma imponderabilidade olfativa. Pelo menos é um cartório perfumado, foi o que pensou, ele que era amante de livros e costumava presentear ao sua biblioteca com essência de lavanda, com conhecidos poderes contra ácaros, traças e mofo. Só não conseguia identificar o aroma, que de tão agradável lhe provocou um ligeiro peristaltismo estomacal, que escondeu delicadamente com uma tosse forçada.
Após a visita ao cartório, o doutor Adelício Bomabrigo levou-os ao seu gabinete, em cuja ante-sala repetiu a mesma cordialidade de apresentações e técnicas organizacionais. Enquanto o nosso Corregedor fazia breves observações lisonjeiras, nosso colega olfativo percebeu que o aroma ali já não se encontrava nos processos, mas no ambiente em si. Pensava o nosso colega olfativo “mas o que será…” quando o doutor Adelício abriu a porta do seu gabinete e uma lufada daquele saborosíssimo bálsamo envolveu os visitantes servindo por si só como um convite a adentrar o recinto privado do diretor do foro. Os olhos vivazes e curiosos do nosso colega esquadrinhavam o ambiente sem mover a cabeça, habilidade discreta que lhe foi de muita valia para a sua nomeação, procurando a fonte daquele mistério, mas não precisou esforçar-se muito nessa tarefa, pois o doutor Adelício ainda tinha uma última apresentação a fazer:
– Um jamón, colegas – disse, virando-se para o nosso colega intrigado – era isso o que o nosso colega aí estava farejando há tempos lá no cartório e abriu-se numa sonora gargalhada que o estremeceu todo – Ali está, ali sobre aquela adegazinha elétrica!
Os visitantes olharam na direção indicada e deram com um enorme pernil de porco defumado, um tanto já desgastado, repousando o osso num anteparo especial. Antes que qualquer um deles pudesse fazer algum comentário, porque era necessário algum tempo para se encontrar algo adequado para dizer, o doutor Adelício prosseguiu:
– Essa peça aí é espanhola legítima da Estremadura, um jamón pata negra de R$ 350.00 o quilo e o bichano aí pesava cinco quilos, então colegas podem fazer uma idéia. Curado e defumado tão bem que nem dois bispos poderiam fazer melhor, como o respeito devido às coisas eclesiásticas. Mas vamos deixar de elogios e incensos que nessa matéria o meu querido Mister Pig é pós-doutorado. E mais uma gargalhada.
Enquanto os colegas daqui ainda não haviam encontrado nada apropriado para dizer, o doutor Adelício já alcançara o jamón de com uma faca afiadíssima passou a tirar-lhe lascas no sentido das fibras e voltou-se com um pratinho na mão, estendendo-o aos visitantes, que nada melhor acharam a fazer senão aceitar, para a grande alegria do anfitrião.
– é para os colegas, sabem, costumamos nos reunir aqui no final das tardes pra confraternizar e beber um bom vinho jerez da Andaluzia, naturalmente, que combina com o sabor amendoado do bichinho – e lá se foi a abrir sua adega e mostrar algumas garrafas que passavam de mão em mão, enquanto elogiava as qualidades de cada uva.
– Mais uma lasquinha, colegas? Não? Olhem lá quem um jamón desses é raridade, é como um daqueles processos escabrosos e cheios de nós cegos que ficam no gabinete por um ano e a Corregedoria encima e quando menos se espera, vem uma petição de acordo e é zapt, lá vai ele direto para o arquivo. É um presente dos céus. Então, mais um pedacinho! – e já foi talhando outras lascas com a maestria que faz a prática.
Depois de receberem cada qual o seu bocado, o corregedor viu que era hora de baterem em retirada, certo de que estava que o doutor Adelício os reteria ali até que só restasse o osso do bicho.
O diretor do fórum levou-os até o átrio e de um apertado e caloroso abraço em cada um, como se velhos conhecidos que não se vissem há muito tempo e despediu-se, acrescentando jocosamente que Mister Pig também sentiria a falta deles.
No meio do caminho, a conversa girou sobre a invulgar figura do doutor Adelício e de sua extravagância particular. O nosso colega olfativo ponderou que o jamon estava uma delícia, sem intenção de fazer trocadilho com o nome do anfitrião.
– é, respondeu o outro juiz-corregedor, mas um pernil de porco no gabinete? Faça o favor!
– Faça o favor nada, retrucou o Corregedor – que aquilo é que foi recepção, muito melhor do que o cafezinho de sempre e só não aceitei uma taça de vinho para dar o exemplo. Imaginem só que ele dá nome a todos os pernis e veio me relatando ali pelo corredor afora, Don Giovani, Garibaldo, Roncador, Ajudante, Alma da Serra e não sei mais quantos apelidos disparatados. O certo é que o homem é feliz e pelo jeito, trabalhador. Agora, pergunto a vocês, com pernil ou sem pernil, vocês já viram um juiz feliz? E vamos a uma churrascaria, que toda essa defumação me deixou abriu o apetite.