A Justiça de Friedrich Dürrenmatt.

Friedrich Dürrenmatt foi um homem obcecado pela idéia de Justiça. Sua relação com o tema provinha, assim julgo, de algum tipo de experiência pessoal e de uma cuidadosa observação da natureza humana. Sua visão da Justiça era cáustica, irônica, impiedosa, mas extremamente realista e tenho a impressão de que, no fim das contas, ele acreditava que a Justiça não podia ser atingida através de um processo ético social, senão como ato de vingança pessoal, e acerca de cuja adequação ninguém ousaria discordar. Assim é nas novelas “A Dúvida” e “O Juiz e Seu Carrasco”, bem como no conto “A Pane”. Nesse, há um comentário do personagem que aceita participar como réu em um julgamento de passa-tempo em um jantar (mas eu não cometi nenhum crime), que é prontamente rebatido pelo promotor público presente: ora, um crime é coisa que sempre se pode achar. Comentário terrivelmente verdadeiro, como seria o que dissesse que um crime é coisa que sempre se pode desfazer. Essa implacável verdade da vida, em que a existência ou inexistência de um fato criminoso real é completamente relativizado pela Justiça, é, aliás, o tema de sua obra mais complexa e pessimista, o romance “Justiça” (1985). Como se chega à verdade, afinal, essa verdade sobre a qual se debruçará a Justiça? Friedrich Dürrenmatt não acredita nisso, creio eu e o expressa por um de seus personagens advogados: acontece que não existe testemunha objetiva. Toda testemunha tende a acrescentar inconscientemente coisas inventadas às vivenciadas. Um acontecimento que é testemunhado por ela, passa-se tanto no exterior quanto no interior da testemunha. Esta capta o acontecimento em sua memória, e a sua memória o converte: cada memória reproduz um outro acontecimento. Exata descrição da razão pela qual a Justiça há muito se pauta pelos critérios de aparência e mera verossimilhança. O acusado farsante (o industrial Kohler) sabe muito bem disso e diz a seu advogado, quando lhe propõe que reabra o caso do ponto de vista de que não tenha sido ele o autor do homicídio: o real é um caso excepcional do possível e, como tal, também pode ser concebido de outra maneira. Perfeito. E os advogados não devem preocupar-se com mais do que isso: um advogado não é um juiz, se ele acredita ou não na Justiça e nas leis que são deduzidas dessa idéia é com ele…mas como advogado compete-lhe investigar se um sujeito que foi apanhado pela justiça pode ou não ser considerado culpado por ela, não importando ou não se ele é ou não culpado, diz o advogado Stüssi-Leupin, figurão da advocacia, que se sentia obrigado a comprar um Van der Heussen, embora preferisse um Zé-dos Anzóis qualquer ( Destino, quando se vira moda). Imagino a indignação da Ordem dos Advogados com essa visão da profissão, mas prefiro a crueza do comentário de outro personagem do livro: Ela, a Comissão de Fiscalização, nada tem a opor a um advogado de porta de cadeia que ganha dinheiro, mas tudo contra um que não ganha nada. Aí, a honra profissional se rebela. É hora de cair na real, diz o mesmo personagem ao protagonista do romance, um advogado de prostitutas com um escritório caindo aos pedaços, prenunciando a sua desgraça: sabe por quê? Porque o senhor não sabe representar, não tem postura e nem barriga. Ter estudo, sem dúvida, é muito bonito, mas com bons exames o senhor não impressiona ninguém, afora os professores. Ao final, após novo julgamento que conclui pela insuficiência de provas, Kohler despreza o veredito: absolvido, um nojo.