Mau Jeito

João Inácio da Silva era o bem-sucedido proprietário de uma loja de rações, ferramentas e um variado sortimento de venenos proibidos para acabar com qualquer tipo de fauna ou flora que incomodasse seus clientes, no pequeno povoado pesqueiro da Armação da Piedade, lugar de pouca civilidade e muita crendice e superstição. O começo fora difícil, havia muito fiado e a excessiva procura pelos seus venenos logo chamou a atenção das autoridades sanitárias, tamanha era a contaminação dos riachos e a mortandade de pássaros e peixinhos, de forma que os “remeidinhos”, como eram conhecidos, passaram a ser oferecidos clandestinamente.
O negócio, contudo, foi se agüentando e até cresceu, com o aparecimento dos turistas na região, que deram um impulso àquele rincão esquecido pelos governos. Assim como seus negócios prosperavam, cresceu também a barriga de João Inácio, cujo volume se destacava pelo fato de ele continuar usando suas velhas camisas dos tempos difíceis, cujo tecido a muito custo mantinha unidos casa e botões.
Num final de tarde de início de outono, a luz dourada do sol entrava placidamente pela grande porta da frente da loja e iluminava o casal de proprietários, que se mantinham encostados um ao outro, debruçados sobre o livro de contabilidade, de costas para a rua, do lado de fora do balcão, conversando e movimentando os glúteos como dois marrecos, satisfeitos com o lucro apurado no mês.
Eis que, então, entra o pasto Indoclécio, da igreja evangélica “O Senhor é Amor”, à qual pertencia o casal:
Boa tarde, em nome do Senhor – saudou.
O Senhor seja louvado – responderam os dois, virando-se e percebia-se mais o ânimo de dona Figênia do que o fugaz interesse de João Inácio, que fora primeiro comerciante para depois ser crente.
Então, João – disse o pastor com aquela indulgência típica que algumas pessoas principais costumam ter com os mais simples – pelo tamanho da barriga vão bem os negócios mas o irmão vai ter que prestar contas da gula ao Senhor.
Ah, pastor – respondeu João Inácio, que estava alegre com a aferição de seus lucros – tem tanta coisa boa no mundo pra gente comer. Hoje está tudo mudado, é muita fartura. Antigamente, quando uma pessoa chegava numa festa levando duas galinhas assadas, era motivo de admiração e respeito de todos. Hoje, isso não é nada, qualquer pobre tem um pedaço de carne sem osso na panela.
Olha, pastor – interveio dona Figênia – esse homem está comendo demais. Às vezes ele chega a se cansar de tanto comer e pára, suspira, limpa o suor da testa e come outro tanto. Eu digo, chega, homem, mas ele não me obedece e continua naquele estrupício. Pra mim, isso já é doença.
Que doença, mulher, desde quando comer bem é sinal de doença? É sinal de saúde – respondeu João divertido batendo na barriga, que chamava de “latão” – E benza Deus!
Benza Deus? – retrucou ela – por acaso tu já vistes algum santo ou anjo barrigudo?
João se divertia escutando a mulher e respondeu:
Mulher, não te esqueças de que o zangão também voa e de mais a mais, nós não adoramos imagens. É como eu estava dizendo ao pastor nosso amigo. Antigamente era tudo diferente. Não se criava galinha ou gado. Naqueles desertos só se criava cabra, que tem a carne seca e desgostosa. Depois veio a evolução e basta ver a gordura e fortaleza dos padres.
Então vai comendo, mas vai tu mesmo fazer o teu chá de boldo quando reclamas de dor no estômago – encerrou o assunto a mulher.
João, em seguida, esfregando as mãos e sorrindo, dirigiu-se ao pastor:
Então, pastor Jonas, em que nossa loja pode lhe servir?
O pastor, que tinha ouvido todas aquelas sem razões e tendo-se ferido em sua autoridade religiosa com brincadeiras, resolveu dar ânimo ao assunto:
Olhe, irmão João Inácio, sou obrigado a concordar com a irmã Figênia.
Ahn?
Sim, irmão, a gula é pecado mortal, que o Senhor condena, louvado seja.
Louvado – repetiu dona Figênia.
Ah – fez João amarelando o sorriso.
Quando se brinca com o pecado é porque não se resiste à tentação – acrescentou o pastor.
Como bom negociante, João Inácio sabia da regra de ouro de não discutir com os fregueses e decidiu mostrar sua reprovação humildemente:
Então é pecado ter prazer nesta vida, pastor? É só trabalhar, trabalhar, trazer a comida pra dentro de casa e ir deitar com a barriga roncando? Na nossa congregração tem muitos parrudos, olhe lá o Antonio da Zica, o Anastácio da Ione. Acho que se o crente cumpre suas obrigações de pagar o dízimo e freqüenta os cultos, devia de poder engordar um pouquinho – e arqueou as sobrancelhas.
O pastor, que em nenhum instante esquecera que o dízimo de João Inácio era dos maiores que arrecadava, viu que era hora de contemporizar:
É claro, irmão, o que o Senhor condena é o comer desmezurado, o magro que bota barriga no exagero. O irmão sempre foi parrudo, pelo que me lembro.
Mas João Inácio, entusiasmado por seu próprio discurso, continuou:
Sendo magro é fácil falar. Até parece que todo magro tem fome e não come pra não engordar. O Senhor fez os magros e fez os gordos.
Falou bem, irmão, mas o magro que bota um barrigão vai contra a natureza – remendou sem tato o pastor, aborrecido com aquela discussão, mas sem poder controlar de todo o seu desgosto pela afronta à primazia hierárquica de suas opiniões.
A essa altura da conversa, João Inácio já perdera de todo o sabor dos números de seu negócio, pois o tamanho de sua barriga era do seu interesse e de sua mulher, apenas. O que tinha o pastor que enfiar-se no meio dos dois e falar de pecado, quando eles, no máximo, resolveriam o assunto com um simples chazinho? Além do mais, era membro da Igreja mais por razões comerciais do que por inclinação, pois isso atraía toda a congregação para o seu negócio e já outra igreja se instalara na localidade e ele andava pensando secretamente em mudar de ares, na busca de novos fregueses, pois a animosidade provocada pelos pastores era tal, que os membros de uma igreja não gastavam no comércio do membro de outra.
Pastor Indoclécio – replicou – o pastor já viu a barriga do pastor Ananias, lá da “O Senhor é a Luz”?
Fazendo-se de desintendido, o pastor responde:
Olhe, irmão, o irmão trabalha esses anos todos e o Senhor bem o recompensou pelo seu labor honesto nesta comunidade.
Hum.
Desta vez, foi o pastor que esperou com um sorriso amarelo.
Então, pastor, deseja algo de nossa loja?
Sim, sim, um remeidinho pras plantas.
Veneno, o senhor quer dizer!
Mas prá nós é um santo remedinho – riu sem jeito o pastor, arrependido por não ter ido embora.
A lei proíbe…
Comprar e vender – respondeu contrafeito.
Eu só vendo por que tem gente que quer comprar.
Er, Acho que vou levar um quilinho de alpiste.
Hum, é pra já. Mulher?
E qual vai ser o veneno, pastor? Tem o pó de rato, que o pessoal usa pra matar gambá, cachorro, lagarto…Já se é prás plantas, tem aquele de litro, mas tem que ter cuidado porque mata os passarinhos e vai por debaixo da terra até o rio e acaba com os peixinhos. Qual o pastor necessita?
Acho que vou ficar só na ração.
Mas o pastor veio aqui prá comprar veneno…
O irmão não pode me dizer o que eu devo ou não comprar – retrucou o pastor.
E o pastor também não pode chegar esconjurando o tamanho da minha barriga.
Dona Figênia, aflita segurando o pacotinho de alpiste, achegou-se ao marido e oferecendo o embrulho ao pastor, disse:
Quem sabe o pastor volta outro dia depois de decidir qual o remeidinho que vai levar, pastor.
O pastor, vendo-se maltratado com tão pouco jeito, respondeu grosseiro:
A irmã está me mandando embora?
Não, pastor, mas se o senhor quiser sair, a porta está aberta.
A sra. não esqueça que eu sou o pastor de sua Igreja, dona Figênia.
Ex-igreja, pastor, ex-igreja – falou alto João Inácio, achegando-se também à mulher.
E ficaram os três assim, frente a frente, banhados pela suave luz daquele lindo entardecer, em que os insetos refletiam em suas asas os dourados raios do sol que se punha e os pequenos pássaros se balançavam nas hastes de cana-da-índia que brotavam no riacho contaminado que corria ao lado.