UMA NOITE COM OS ESPÍRITOS II

Acho que Groucho Marx já escreveu uma memória dele com este mesmo título, por isso acrescentei o II e usei a o título porque é tão apropriado para o caso que merece ser compartilhado. Aconteceu numa audiência cível, por volta de 1996, quando ouvi o depoimento de uma senhora baixinha, simpática e sessentona. Ela parecia estar bastante tensa e a audiência era uma coisa simples, apenas umas informações que ela teria sobre um fato e pronto, por isso tratei de tranquilizá-la, dizendo-lhe:
– Não precisa ficar nervosa, senhora, é tudo muito simples e rápido, ao que ela retrucou falando que não estava nervosa. Tomei seu depoimento e estendi-lhe a folha datilografada para ela assinar e depois de tê-lo feito, disse-me misteriosamente:
– Agora estou nervosa, disse, e foi embora.
No dia seguinte, recebo em meu gabinete uma advogada e vereadora de quem eu gostava muito, me dava com o pai dela e a atendi com cordialidade e ela, muito sem jeito, introduziu o tema da conversação:
– Doutor, o senhor acredita em Deus?
Mas que perguntinha essa, pensei.
– Não, não acredito.
– Nada, nadinha?
– Não, porque a senhora está me perguntando isso?
Ela, de pé, sem graça, me disse que a mulher que eu havia inquirido no dia anterior, era espírita e vidente a havia visto coisas.
– Que coisas, meus Deus, perguntei.
– Ela viu duas pessoas atrás do senhor, uma mulher magra que estava com a mão sobre a sua e orientava o que o senhor escrevia e um negro, este atrás do senhor, com o dedo sobre sua cabeça.
Mas que coisa, pensei, volta e meia tem essas cismas. E o que mais, perguntei?
– Ela lhe convida para ir até a casa dela e conversar um pouco.
– Ah, mas eu não acredito em nada disso.
Então ela começou a insistir tanto nisso e de um jeito tão educado e feminino que vocês sabem, uma mulher assim consegue o que quer. Para não desagradá-la concordei e ficou combinado que o marido dela e filho da dita senhora me acompanharia. E assim foi, naquela noite, por volta das oito horas, batemos na porta da cozinha e a função (como diria a minha avó, que também era metida com o outro mundo), começou de imediato:
– Aqui está o juiz, mãe – disse meu acompanhante.
– Que juiz?, respondeu a mulher, Que juiz? Este homem aqui é um homem bonito, o juiz era um negro feio.
Houve um debate sobre a questão e ficou decidido que eu era realmente o juiz e ela nos permitiu entrar na casa. Naquele momento pressenti que estava entrando numa fria das grandes, mas sair correndo porta afora é que não dava. Ela levou-nos até uma sala com poucos móveis e em que havia três cadeiras, colocadas duas em frente à restante, na qual ela sentou, e nós dois nos instalamos nas outras. Naquela tarde, eu havia dado uma canelada com a perna esquerda numa gaveta de meu gabinete e enquanto esfregava o ponto dolorido e olhava para meu companheiro explicando como conseguira aquele galo, e então, com a maior cara-de-pau do mundo a velha, que estava na minha frente, fazendo-se de desentendida, perguntou-me:
– Não estas sentindo uma dor na canela, perguntou-me: não estás sentindo uma dor na canela (?!)
– Sim, respondi, também me dando por desentendido.
– Ah, pois é, meu filho, é por aí que eles começam.
Fiquei indignado, afinal, que patifaria era aquela? mas resolvi colaborar por educação, já completamente desalentado. A conversa então deslanchou pelo mundo espiritual e era uma barbaridade atrás da outra, até que ela disse que eu tinha um espírito que me protegia (e pelo que me consta, todo mundo sempre tem um, pois mais raquítico que seja).
– Quem é, senhora?
– Queres saber?
– Quero?
– Queres mesmo? – insistiu, levantando a voz e quase gritando – pois é Fulano (pai de um político ilhéu e também ele político). – E olhe aí, ele está chegando!
E começou a olhar para um canto da sala e a descrever o que só ela via, com o maior orgulho:
– Aí está ele, de terno marrom, todo alinhado, lenço branco na lapela –disse – (lembro perfeitamente dessa descrição) e ao que parece, sentou numa cadeira que havia por ali e deve ter permanecido todo o tempo sem dizer nem um ai e nem se intrometer de qualquer forma nos debates até o final da sessão. A velha, na verdade, esqueceu-se dele em seguida. Eu já estava aporrinhado o suficiente, mas o melhor ainda estava por vir. Sem mais menos a velha começou a olhar para um ponto acima de minha cabeça e começou:
– Já vão?, Naão! Fiquem mais um pouco, esperem!
E eu apenas perguntei ao meu companheiro, que parecia tão crédulo quanto a velha, do que se tratava e ele respondeu, depois que a velha o autorizou:
– Diz para ele!
– São os espíritos malignos que estão indo embora.
Ufa, pensei, então acabou? – Perguntei, mas o filho olhava para a mãe que estava com a cabeça virava para cima resmungando alguma coisa que eu não entendi.
– O que é agora?
E a velha já se metia:
– Pergunta para ele se ele aceita!
– Aceitar o quê, dona?
O filho me disse que se tratava de uma entidade espiritual que queria defender a minha causa no céu (causa do quê, agora eu tenho um processo nas alturas? Já não bastavam as provações do aqui agora? Sem buscar me aprofundar no assunto, escutei que ele me disse que o espírito precisava de uma procuração oral (veja-se só como a burocracia celestial é mais suave, mas ainda assim cartorial) para me defender. Devo ter ficado com a cara mais sem graça do mundo quando disse que dava a tal procuração e o espírito, então, encerrou sua participação.
– Bem, então é isso, dona?
– Não!, respondeu a velha – você precisa frequentar o nosso centro no mínimo duas vezes. Aí, perdi a minha famosa calma e retruquei:
– Ah, não, sem essa, eu não sou espírita, sou ateu, como é que vou entrar num centro espírita? Era só o que faltava.
A velha acudiu:
– Não se preocupe, ninguém vai lhe ver, falou com desdenho na voz – você vai encantado.
– Encantado? E me veio sei lá porque a lembrança de um sujeito que conheci, que quando saía de carro com as amantes usava um turbante na cabeça para se disfarçar, custei a entender quando me contaram. – Encantando, eu? Protestei. Quer dizer que vou colocar um turbante na cabeça, ou o quê?
A velha impaciente, olhou para o filho, ele que se dignasse de me responder, o que ele fez muito sério:
– Não, a mãe fará um trabalho e senhor ficará invisível.
– Ah, bom, se é assim – respondi – vou pensar no caso.
Levantei, agradeci a paciência e fui embora sozinho. No meio do caminho, sentindo aquele alívio de quem saiu todo arranhado, mas conseguiu escapar, conclui que a verdade pura e simples era que, naquela noite, eu havia servido apenas para fazer dois malucos felizes.