O ORADOR

O orador tomou a tribuna com passos medidos e também com um olhar medido fitou o auditório lotado, vendo nele apenas o espelho de sua vaidade, massa acéfala sem importância e excessivamente perfumada. Depois, voltou-se logo para a mesa que presidia os trabalhos naquela noite e iniciou vagarosamente a chamada de cada um daqueles que ali se encontravam sentados lado a lado diante de uma comprida mesa coberta com uma toalha branca e inúmeras garrafas d’água. Não teve recato nem discrição, sevandijou-se de forma desprezível, com elogios, encômios, loas semi odes e quase versos que beiravam o risível. Faltou-lhe coragem para o uso dos vocativos clássicos, não tanto a coragem como a certeza de que ao empregá-los, viriam debulhadas as lágrimas, tamanho o encantamento que se dava com o que vinha boca afora. Apoiou as mãos nas laterais da tribuna e com a cabeça virada, pescoço esticado para o microfone, esmerilhou-se na arte bajulatória com sofreguidão, mentindo, inventando, aumentando traços de caráter e feitos e obras dos componentes da mesa. Atrapalhou-se um pouco o orador na saudação do representante eclesiástico, a quem não pode incensar como gostaria com receio de parecer demasiado indiscreto pelos outros componentes da mesa e também porque não conhecia o suficiente das sutilezas da honrada política dos membros da Igreja. Ao jovem acotovelado no extremo da mesa, saudou como nosso caro estudante, dando-lhe a entender que ele não era nada e que a sua presença ali era quase uma heresia. Bebeu, então, um lento gole d’água e concluiu para um auditório que já estava boquiaberto, com um senhoras e senhores. E que lhe importava o auditório? Afinal era um burocrata à procura de seu espaço na burocracia oficial, o discurso que iria fazer, aquela peça surpreendente, como ele a imaginava, tinha como destinatário a mesa oficial do evento, onde se encontravam os carreiristas como ele, os incompetentes guindados à hierarquia do Estado por sua parentela ou natural pendor para as articulações políticas internas, os frutos do merecimento imerecido, os representantes da antiguidade, enfim, a arraia miúda e média da burocracia de estado local, a suprema desimportância da História que estava ali viva, os corações batendo, os intestinos trabalhando silenciosamente.
Tivesse aquele discurso acabado por ali, teria sido como ir ao teatro, o silêncio mortal do público contra a voz plena e reverberante do orador por todo o recinto, declamando textos repetidos inúmeras vezes até o decorado, a gesticulação, as palavras explodindo de sua boca, molhando os beiços, o inferior quase que escapando queixos abaixo e sendo sugados como uma meleca incômoda, o arregalamento dos olhos e o soerguimento do corpo até a ponta dos pés, indo e vindo, como se as palavras ditas fossem tão honestas que trouxessem consigo o coração do orador. Os olhos do público voavam do orador para aquele que recebia o incensório e era fácil identificá-lo, pois no mesmo instante se mexia-se na cadeira, empapuçava-se, olhava o orador e fazia movimentos ritmados com a cabeça e mexia discretamente os lábios, onde se podia ler um muito obrigado que era repetido várias vezes; quem estava a seu lado já se ajeitava, aguardando ouvir o seu nome, precedido de todos os pronomes de tratamento que eram devidos a sua autoridade. Ao monsenhor presente, tudo aquilo lembrava-lhe ele próprio, distribuindo o Espírito Santo na carne de Cristo consubstanciadas nas hóstias aos fiéis ajoelhados a sua frente, que depois levantavam-se circunspectos e solenes, agradecidos por terem recebido a graça.
Encerrada naquele momento a peça, todo mundo ficaria satisfeito, assim como quem aceita uma diária paga e o almoço de graça, teria o público a certeza absoluta de que valera a pena ter perdido horas na frente do toucador, ajeitando aqui, puxando ali, borrifando acolá, sem entender nada, mas que lindo que fora, isso não se discutiria, era só levantar e aplaudir com muito gosto e até pedir bis, deixar o orador perplexo e o presidente da mesa embaraçado, mas logo aderindo aos aplausos também, pois não ficaria mal passar por grosseiro àquela altura em que a realidade dava lugar à outra, mais prazeirosa, não seria uma defesa instintiva contra o que estava por vir? Aplaudiria o presidente e toda a mesa o seguiria e o orador, desvanecido e confuso, não saberia se era o caso de sair da tribuna ou aguardar o término dos aplausos para prosseguir, até que o mestre de cerimônias o tocaria no cotovelo e ele compreenderia que estava tudo encerrado e cederia lugar ao cidadão, que desfaria a mesa e o público adentraria no palco e todos se abraçariam e aos beijos, posariam para os fotógrafos presentes.
Entretanto, não foi assim; logo após proferir as agourentas palavras senhoras e senhores, o público já sabia que teria um preço a pagar naquela noite e por um instante ainda, alguns esperaram que o orador enfiasse a mão no bolso do paletó e de lá tirasse o seu discurso, pois é sabido que nenhum orador suporta escrever por muito tempo aquilo que vai dizer, pois sente a todo instante que já passara o momento de encerrar. Mas o orador não soltou as mãos dos lados da tribuna e iniciou o improviso, que como o nome já indica, é o momento do repente, de trabalhar com as ferramentas inadequadas, de encontrar solução súbita e impensada, de perder a consideração pela plateia, ou seja, o improviso é um recurso para os geniais, e estes  dificilmente sobem nas tribunas.
O orador exauriu o auditório, a mesa, a banda de música que esperava ao lado, os fotógrafos, as mocinhas de saia contratadas para o evento, que trocavam de pé sem parar, tudo, nada que se encontrasse no interior do prédio escapou de sua influência, até o arranjo de flores perdeu a beleza. Desvaneceu qualquer esperança e abateu o ânimo de um por um dos presentes, metodicamente, desviou todas as atenções, franziu inúmeros cenhos, braços se cruzavam, posturas se descompunham e os delírios da sonolência atacaram os predispostos. Falou interminavelmente de coisas que ninguém entendia e a que ninguém importava, misturou alhos com bugalhos, exagerando e multiplicando a mesquinhez e insignificância do ato e da obra, aplicando pausas súbitas, reinícios que lembravam uma avalanche se formando, fazia perguntas e esperava respostas que não vinham, virava-se para a mesa e dava desalentadas e com separadas sílabas as oraculares sentenças e assim foi seguindo naquele inferno adiante, até que escutou um arrastar de cadeiras vindo da mesa e finório como era, compreendeu.

De repente, uma chicotada vibrou sobre o público, elétrica, estimulante e rápida, foi apenas um segundo, mas atingiu a todos os presentes e até os dorminhocos a ouviram com aquela pequena porção do cérebro que permanece em vigília: o orador dissera muito obrigado. E um estrondo de aplausos ensurdecedor tomou conta do lugar, a espetacular vingança da platéia, o elegante deboche do público.