DOUTRINADORES – QUEM PRECISA DELES?

DOUTRINADORES – QUEM PRECISA DELES?

Há algum tempo atrás caiu-me nas mãos um convite para comparecer a um ciclo de palestras jurídicas, ministradas por vários – digamos assim – juristas. Para os leigos, seria oportuno esclarecer que jurista não é quem empresta dinheiro a juros, mas sim um indivíduo que se tem como expert em Direito, quer seja assim reconhecido, ou não. E há tantos juristas no mundo que nem se pode imaginar…O convite apresenta-se na forma de um menu de restaurante, com o retrato do jurista, sua biografia ao lado e à direita o horário de sua exposição. Mas o que me fez não esquecer do caso foi um certo prato daquele cardápio, cuja receita era excessivamente complexa; o cidadão incluía tudo na sua escalada jurídica, a partir da escolha do curso de Direito: eram cursos de uma hora de duração, palestras adiadas, congressos que a gente sabe que só servem pra fazer sacanagens, especialização pela internet, artigos escritos, um livrinho na base do copia e cola, enfim, um rosário de vaidades interminável, um parágrafo de dez linhas no tipo 10, que obscurecia todos os seus colegas, com uma biografia de apenas uma frase. Para terminar com grande pomposidade, havia uma última palavra,  ladeada por dois pontos: Doutrinador. Era um prego. A atração principal daquele circo de arrabalde.

Doutrinador! E eu conhecia o sujeito, que se algo tinha de doutrinador, era alguma experiência paroquial em curso de batizados. Não conhecia nada de direito, uma casquinha apenas, e só tinha pose. Mas pose, no mundo dele, já era 50% do sucesso profissional. Junte-se mais uns 10% do cabelo lambido a vaselina (naturalmente algo menos vulgar) e uma sevandijice a juízes e desembargadores, e o homem estava praticamente feito. Era o caso do nosso doutrinador.

Mas que palavrinha ordinária essa. Eu mesmo me envergonho de ter no meu menu a seção Doutrina, colocada num momento de espasmo, e que não retirei e não troquei por Opinião porque não sei como fazer. Ela tem não sei que de esnobismo e de arrogância, de afetação inglesa, me lembra a cara de nojo de Somerset Maugham numa fotografia oficial. Quando penso nela, na verdade, me vem um misto de estados de espíritos, uma submissão ao conhecimento herético, iniciático, maçônico, de que não carrego a chama, a reverência a algum tipo de anacoreta, um ascético que desceu da montanha trazendo o conhecimento para partilhá-lo olhando de cima para baixo, enfim, não me provoca nada de bom. Uma vez vi um, aguardando para anunciar o seu oráculo, num desses congressos que pululam por aí como brotoejas no verão. O homem fumava usando uma piteira. Aquilo me bastou. Idiossincrasias, o que fazer? Devo confessar que não vi nem o início da dita palestra, tão repulsiva me pareceu a cena no seu conjunto, mestre de cerimônias de um lado se lambuzando na bajulação, e doutrinador de outro. Anos antes, conheci outro, que se fosse chamado assim, teria um ataque de nervos. Foi ao meu gabinete de juiz substituto em Tijucas/SC exclusivamente para me conhecer, porque eu havia dito a um advogado de sua banca (em Porto Alegre/RS) que o admirava e levava no porta-malas do carro uma caixa de papelão com tudo o que ele havia escrito. Ele usava uma camisa de mangas curtas surrada, calças de tergal curtas e sapatos por engraxar. Conversamos algum tempo e ele me disse que era apenas tolerado no mundo jurídico. Foi o maior processualista que li, tudo o que sei de processo aprendi com ele e ainda hoje, suas obras são praticamente as únicas que consulto. E ele não era um doutrinador, detestaria ser conhecido assim. Era um processualista: Ovídio A. Baptista da Silva, de saudosa memória.