MISSA DE CORPO PRESENTE

Morreu Altair, isso para a ex-mulher, porque para a atual companheira já de muitos anos, Altair falecera, o que é coisa bem diferente; quem morre, acaba-se, quem falece acaba-se também, mas deixa saudades. A sutil diferença dos verbos dizia muito sobre o sentimento que as duas nutriam pelo morto, mas a ex-mulher não deixou de comparecer à missa de corpo presente que a companheira do ex-marido decidiu realizar, bastante religiosas que eram as duas. Foi, não por compaixão, mas para sentir que estava viva.

Quem não gostou muito da ideia foi o padre que a atendeu pela manhã, que ponderou que estava fora de moda, que o usual era fazer uma oração na capela mortuária um pouco antes da saída do féretro, que muitas pessoas se sentiam desconfortáveis com um morto dentro da igreja. A teimosia da viúva só fazia enfadar o sacerdote:

-Mas, padre, as igrejas estão cheias de mortos, é só olhar em volta todo esse ajuntamento de santos e as imagens sangrentas da tortura e morte de Jesus.

-São santos, minha filha – retrucava o padre – e essas são as suas imagens, é natural, pois nós os veneramos.

-Mas e Jesus, nosso Senhor?, lá no altar – insistia a viúva – ele está bem morto, pendurado na cruz daquele jeito, se não fossem os pregos, caía no chão, o espírito já se foi ao Pai, como o de meu marido.

-Cristo Crucificado é o símbolo da Igreja Católica, minha senhora – respondia o padre – e também é apenas uma imagem de barro.

-Mas todos somos barro e todas essas estátuas, de uma forma ou de outra, são feitas do nosso barro.

-Dona Bete (que esse era o nome dela) – insistiu o padre – a senhora é importante no nosso rebanho – não vamos criar um problema e seguir o costume de todos aqueles que entregaram a alma ao Senhor. A capela mortuária. Imagine se eu tiver que rezar uma missa por todo fiel desencarnado…

-Está bem, padre – respondeu dona Bete –  e qual seria a forma de atender meu desejo sem criar problemas?

-Veja, senhora, a paróquia é pobre – começou o padre, que estava criando dificuldades para vender facilidades – há vários vazamentos no telhado e não temos recursos para consertar…

-E quanto o senhor acha que seria adequado? – perguntou a viúva, que viu que, enfim, chegava-se ao cerne da questão.

-Mil reais.

-Sei, mas missa completa, do começo ao fim e uma homenagem a ele também.

-É claro, dona Bete, a gente sabe como fazer as coisas. Pode trazer o corpo hoje as 16:00 horas e sobre a contribuição…

-Aqui está, padre, de contado, em notas grandes e não precisa passar o recibo, que estamos na Casa de Deus.

No horário previsto, o caixão foi colocado próximo ao altar e as famílias e amigos se agruparam nos bancos da frente, dona Bete no primeiro banco, junto ao caixão e a ex-mulher ficou no outro lado, sentada mais atrás.

O padre chegou paramentado, como contratado e deu início à missa, desgostoso, pensando o que não se fazia para agradar aos fiéis. Mas o sacerdote estava espicaçado com o final da conversa com dona Bete, como se ela soubesse que tudo era uma simples questão de dinheiro e inclusive já o trazia contadinho dentro da bolsa. Pior ainda, dizer que não precisava de recibo era o mesmo que sugerir que aquele dinheiro era uma doação pessoal e intransferível a ele, que o usasse como bem entendesse.

A missa correu como o combinado, mas na hora de homenagear o defunto Altair, que era de fato uma pessoa muito querida por toda a vizinhança, o padre decidiu fazer a apologia fúnebre olhando para a ex-mulher, que tratava por esposa, e não para dona Bete, que aturou o quanto  a discrição lhe recomendava, até que protestou em voz alta:

-Padre – a esposa dele era eu, vivemos juntos durante mais de 10 anos e tivemos dois filhos, batizados aqui mesmo.

-Mas, filha, ponderou o sacerdote – a senhora vivia em pecado, distante das regras da Igreja – e voltava os olhos para a ex-mulher.

-Como, em pecado? Vivemos como marido e mulher e tivemos filhos, fomos fiéis um ao outro na alegria e na tristeza, na saúde e da doença, isso é viver em pecado? Pois se sempre contribuímos com o dízimo – indignou-se dona Bete, aumentando o tom de voz.

-Mas, filha, se assim foi, por quê não casaram? – e dava um leve sorriso para a outra.

-Não casamos porque achamos isso sem importância, o importante é que somos tementes a Deus e ensinamos nossos filhos na doutrina.

-Mas, a Igreja exige o casamento, faz parte do ritual apostólico romano – retrucou o padre, arrependendo-se de ter dado vazão a maus sentimentos, mas não vendo como sair deles.

Enquanto esse bate-boca corria, um grande mal estar se fazia na platéia, se assim podemos nos expressar, pois embora todos católicos, ninguém nunca deu importância a essa questão entre a viúva e o defunto, mas o padre, que havia se enfiado naquele sarilho, procurava manter a sua autoridade eclesiástica e continuava a provocação da viúva e olhava compassivamente para a ex mulher, a única que parecia estar se sentindo bem com a súbita homenagem que recebia. Enquanto isso, o defunto aguardava pacientemente em seu caixão e era isso o que mais doía em todo mundo. Já não bastava ter morrido e ainda tinha que ser o protagonista daquele episódio.

A viúva, abalada com a perda, com os nervos já estraçalhados pela perda e horrorizada com toda aquela encenação do padre, saiu de si:

-Seu cretino!, vou levar meu marido para a capela mortuária, onde será chorado com sinceridade e misericórdia. Deus está olhando, padre, ele está vendo tudo o que acontece aqui dentro. Um dia o senhor vai prestar suas contas. E quero meu dinheiro de volta, mil reais, que paguei e não venha me dizer que não paguei apenas porque não me deu recibo. Eu vi como seus olhos sorriram quando em falei na questão do recibo, mas eu paguei, que não tem missa encomendada de graça.  Sabe-se lá onde está esse dinheiro …

Do meio de dos presentes, uma voz masculina dura falou – debaixo da batina!

E os mais próximos já se levantaram e alçaram o caixão e o depuseram no carro funerário pela porta lateral, enquanto padre, já peitado por amigos do morto, enfiou a mão por baixo da batina e sacou da carteira que trazia no bolso de trás, os mil reais que recebera por um serviço tão mal feito, enquanto olhava a mulherada se ajoelhando e se benzendo, antes de sair às pressas e murmurando da igreja.

(Inspirado num fato real)