O ENCONTRO

O encontro

Fazia um frio de gelar os ossos e João Primo estava acabando de jogar seu espinhel ao longo da costa leste da Ilha do Arvoredo. O dia já clareara opaco, mas João já estava no mar há mais de cinco horas e fizera sozinho com sua velha baleeira o percurso de quinze milhas do continente até a ilha e depois  a rodeara e se afastara mais um bocado. Era ali que costumavam aparecer os cardumes de corvinas, anchovas, pampos e estava frio demais para que os barcos da patrulha da Capitania estivessem pela área para criar problemas. E a pesca estava tão escassa dentro da baía que ele precisava correr o risco de adentrar naquela zona proibida. Não ia demorar muito, de qualquer forma. Não como seria adequado, esperar até a madrugada seguinte para recolher os anzóis. Descansaria na pequena prainha da ilha, cujo imenso volume se projetava em suas costas, naquele amanhecer brumoso. Depois, recolheria o espinhel e contornaria a ilha, para o caso de, se fosse abordado pela Marinha, alegar que vinha das Ilhas Galés, em cuja orla era permitido pescar. João  Primo observava o mar e estranhava o intenso frio que lhe congelava as mãos e a névoa espessa e branca que se fechava cada vez mais e já havia escondido a ilha. Apenas se via as ondas lentas que se moviam lentamente, como um grande corpo que se move no sono. E um pesado cansaço se abateu sobre João Primo, que estava acordado desde a noite, na faina de preparação dos anzóis, a longa viagem, o frio intenso e aquele silêncio. Enrolado num cobertor e encolhido, sem poder rumar para a ilha, esperando que a neblina se levantasse, João foi tomado por um sono invencível, de cuja modorra saiu quando um forte baque em sua lancha quase o projetou no mar. Assustado, virou-se e viu que uma pequena canoa à vela em que havia um único ocupante, de quem se via apenas a cabeça projetando-se para cima junto à proa, o havia abalroado.

Ainda assustado, perguntou:

– Eh, está tudo bem?

– Como? – respondeu uma voz velha e cansada.

– Está tudo bem aí?

– Bien, si. Está bien.

– O que houve? Estás à deriva? Tão longe da costa numa canoa tão pequena.

– No te entiendo. Um mar tan grande e dos hombres se tropezan. Es estraño.

João Primo teve a certeza de que o outro era um estrangeiro, um náufrago de alguma embarcação pesqueira, pois estavam em alto-mar e ele parecia em mau estado pela estranha posição em que se encontrava no fundo da canoa. Então, prendeu as duas embarcações com o auxílio de seu gancho de pesca e aproximou-se do outro, percebendo que era um velho, que mantinha as duas mãos unidas apertadas junto ao rosto e que elas estavam bastante ensangüentadas. Aproximando-se mais, viu que o velho apertava fortemente uma grossa e tesa linha de pesca,  que lhe sulcava fundo a carne.

– O que há, meu velho, está ferido?

– Es el pez – respondeu o velho com firmeza – El es mui bravio e poderoso – E virando a cabeça para o mar, falou:

– Como estás, pece? Tu te agotas já, lo siento. Lo siento matar-te, tan lindo e libre es.

Pouco entendendo do que o velho dizia e pensando que delirava, João Primo passou um instante para a canoa e ofereceu água para o velho, que bebeu sofregamente e depois lavou-lhe o rosto manchado de suor e sangue, ajeitando-lhe com cuidado a cabeça sobre um pedaço de pano.

-Estás cansado, meu velho, descanse um pouco, coma um pouco de pão e carne que trago comigo.

– Hambre? No, estoy harto, peces crus, sabes?

– Me lembras alguém, velho. Meu pai. Seria bom se fosses ele. Ele também era um velho pescador. No fim, andava meio sem sorte e eu o ajudava. Não se canse demais.

– Gracias – respondeu o velho sem soltar a linha e acalmando-se com aquelas palavras que não compreendia, mas que sabia que eram boas – No, no, por favor, el vá a empujar luego, tengo que estar atiento. Las heridas no me dolen más, hay cosas peores – reagiu quando João tentou tratar-lhe as mãos e em seguida sorriu para ele.

– De onde vem o senhor?

– Lo entiendo. No vengo. Soy de acá, de la baía, ahora distante.

– És estrangeiro? Sou daqui e nunca vi o senhor.

– Pero todos me conocen. E tu, de onde eres?

– Eu? Sou daqui.

– Ah – fez o velho – somos los dos de acá, los dos pescadores, no nos conocemos e hablamos otras lenguas. El mar es estraño. Estraño e profondo.

Certo de que o velho não estava em seu juízo, João Primo decidiu amarrar as duas embarcações e rebocar a canoa do velho até o povoado, quando um súbito tranco desprendeu a pequena canoa e a projetou para a frente alguns metros. O velho aprumou-se, retesou os braços contra a proa e saudou:

– Hola, pez.  Venga ao aire, salta e agota-te, pez.

E nesse instante, João Primo viu assombrado projetar-se na frente da canoa  num salto espetacular que parecia durar toda a eternidade, um enorme marlin azul com as barbatanas lombares erguidas como um grande velame e torcer a grande cabeça com a poderosa espada, tentando rebentar a linha que o prendia e mergulhar fragorosamente em seguida, puxando a canoa que quase enfiava a proa n’água, rebocada pelas mãos de ferro do velho.

A canoa se afastava rapidamente na bruma e João Primo, atônito ainda, gritou para o velho:

– Teu nome, velho, quem és?

Já perdida na névoa a canoa, veio a resposta firme e sonora do velho:

– Soy Santiago, de ahí, de la Baía de Habana. Gracias e hasta la vista.

Durante um bom tempo João Primo ficou a observar a bruma e a pensar sobre tudo aquilo e quando deu por si já a bruma se dissipava aos poucos e deixava visíveis os  contornos da Ilha do Arvoredo. Então, olhou para o fundo de seu barco onde havia recolhido uns poucos peixes e pensou que eles não pagariam nem o óleo. Estranho era o mar. Virou o motor iniciou o contorno da ilha.