O GOLPE DO PEIXE PANGA

Há mais de 300 anos, o autor português anônimo da primorosa obra “A Arte de Furtar”, dedicou-se a esmiuçar a triste sina da natureza humana em sua especial propensão para enganar o seu semelhante. Dentre as centenas de gatunagens, vigarices e espertezas de que tinha notícia naquele reino, uma delas era o golpe do bacalhau, em que um golpista comerciante de peixes, molhando a mão do secretario do Conselho Real, conseguia vender-lhe uma partida de bacalhau, como alimento fortificante para as tropas reais. Bacalhau apodrecido, naturalmente.

Aqui, no século XXI, o golpe da moda é o aplicado pelos bufês comerciais da cidade, e suponho, ocorra em todo o país, é o golpe do peixe panga. Consiste este golpe em comprar um peixe importado do Vietnã, com a acusação de ser tratado à base de metais pesados e outras especiarias tóxicas no delta do rio Mekong, e servi-lo como se fosse o nosso conhecido, costeiro e saudável linguado. A ocasião faz o ladrão, diz o ditado, e neste caso, estão reunidos todos os atrativos para uma perfeita malandragem: (a) o preço, três ou quatro vezes menor do que o do linguado do mesmo porte; (b) a carne branca, macia, os filés grossos e sem espinhas e (c) uma remota semelhança de sabor com o linguado.

O panga é servido à milanesa ou à doré e liquidou com a tradição do nosso peixe à milanesa dos bufês, costumeiramente preparados com pescadinha ou peixe-espada. No primeiro caso, transformou o prato tradicional em suspeito como um black bloc, pois nunca se sabe o que vai escondido sob a camada de farinha e ovos; no segundo, é servido ostensivamente como linguado. No primeiro caso, o consumidor que pergunta, é informado de que se trata de linguado e no segundo a placa faz questão de dar essa informação. E o consumidor desavisado acaba formando uma opinião elogiosa do comerciante, que é exatamente o efeito que ele pretende obter. Se o comerciante é flagrado na fraude, alega que compra o peixe como se linguado fosse, mas é difícil acreditar, uma vez que qualquer cozinheiro sabe diferenciar o linguado de qualquer outro peixe.

Essa infeliz conduta generalizada é fato típico e antijurídico e está definida no art. 66, do Código de Defesa do Consumidor. Vale lembrar, também, que o mesmo Código dispõe  que a oferta de produtos ou serviços deve ser clara e precisa, e vincula o fornecedor (art. 33), de forma que quem oferece panga por linguado, tem que servir linguado, ou responder por isso na forma da lei, sujeitando-se, além das medidas citadas, a várias penalidades administrativas.

Em resumo, está vivo e aguçado o ditado “comer gato por lebre”, e é lamentável que por pura cupidez e malícia, os donos de restaurantes façam seus clientes consumir a sua ração de peixe duas vezes por semana – segundo as recomendações médicas de rotina – com um produto de qualidade inferior e de muita polêmica, como qualquer pesquisa na internet pode comprovar.

Passados mais de três séculos, só mudou o peixe, e variaram as condições, mas o golpe continua o mesmo, o que faz lembrar a contundente afirmação do paleontólogo americano Stephen Jay Gould, de que o homem evolui, mas não melhora.

Esta é a crítica de um juiz cidadão e consumidor, frequentador assíduos de bufês espalhados pela nossa cidade. E que gosta de peixe, mas, como qualquer pessoa, não gosta de ser enganado.