DEBAIXO DA MARQUISE

Uns dias atrás, quando caminhava de manhã por uma das ruas próximas ao fórum, cruzei com uma jovem debaixo de uma marquise de ônibus. Ela usava um macacão da moda, preso por um cinto, tinha os cabelos negros e longos, ainda molhados  do banho e usava enormes óculos escuros. Trazia preso entre o corpo e o braço esquerdo dobrado um desses cachorros minúsculos.

Com essa descrição, pode o leitor pensar que me interessei pela jovem, mas observar esses detalhes foi importante para o desenrolar da história e talvez, um cacoete da profissão.

Então, como eu dizia, encontramo-nos em sentidos opostos debaixo da parada de ônibus, e até ali eu havia reparado nela como em qualquer outra transeunte desconhecida, mas a uns dois passos de cruzarmos um pelo outro, ela abriu um belo sorriso me disse alegremente:

– Bom dia!

Não era um “bom dia”, mas um cumprimento de quem estava feliz por me encontrar. Com toda a rapidez que pude, na fração de segundo de que dispunha, esquadrinhei o seu rosto, nariz, boca, fixei-me nos olhos escondidos atrás das lentes escuras, pensei em duas servidoras do fórum que me conheciam e que seriam capazes daquela espontaneidade, mas nada. Quem seria? Mais uma fração de segundo para amaldiçoar a memória.

Só me restou a alternativa de responder e procurei fazê-lo com o mesmo sorriso, para não parecer grosseiro, mas nesse instante já estávamos concluindo nosso cruzamento. Daí que falei com a cabeça meio virada:

– Oi, bom dia, tudo bem contigo? – e segui em frente.

Deixei a moça se afastar um pouco e olhei para trás (pois há várias maneiras de reconhecer uma mulher). Reparei no que pude, e nada.

Nesse instante, ela também virou a cabeça para mim, não totalmente, e respondeu, mas já sem sorrir, apenas com um certo enfado:

 – Bom dia.

Foi então que reparei que ela, além de apertar o cachorro com o braço esquerdo, estava com um celular naquela mão, colado na orelha e o seu interlocutor deve ter atendido no exato momento em que estávamos sob a marquise.