PLANTANDO BANANEIRAS NO BANHEIRO

Na comarca X, havia um certo servidor, que pela natureza de suas funções, trabalhava só e não era pessoa fácil de se lidar; possuía transtornos mentais, um histórico de licenças por esse motivo, era indisciplinado por contingência e tinha a sua própria visão de como as coisas deveriam ser. Não adiantava orientar, cismava e empacava. Como sua função era estratégica, a condição dele se tornou um problema, mas o serviço médico do tribunal, chamado a examiná-lo mais de uma vez, dizia que ele estava bem. Os servidores não queriam muita aproximação dele por causa de suas atitudes inusitadas e como era alto e forte, metia medo, não porque fosse agressivo, mas exatamente por não parecer, se é que me faço entender. As mulheres da limpeza tinham pavor dele, porque o ouviam na sua sala gemendo (parecia um boi mugindo, era o que diziam) e viviam se queixando à secretária do forum de que o banheiro masculino, depois que ele o usava, ficava parecendo uma lagoa, com toalhas de papel espalhadas até pelas paredes. Ninguém sabia o que ele fazia lá dentro, apenas que produzia muitos ruídos. Essa descrição não tem nenhum propósito de diminuir o servidor, apenas o de  formar a moldura do quadro que vem a seguir.

Nesse mesmo período frequentava o forum um advogado também complicado, que falava entre dentes, sibilando, um sorriso permanente como se fosse um rictus nervoso e que tinha uma habilidade especial para afastar as pessoas e colecionar desafetos. Certa ocasião, depois de conseguir uma carona de 200km no carro do presidente da OAB local, no meio do percurso, este lhe perguntou o que achava de sua gestão. Uma merda!, foi a resposta, e ainda faltavam mais de 100km para chegarem ao destino. Esse advogado tinha uma mania (aqui já no sentido patológico da coisa), que gostava de alardear, e que consistia em entrar no banheiro masculino minutos antes de uma audiência e plantar uma bananeira para que, segundo ele, o sangue irrigasse o seu cérebro e o seu desempenho fosse maximizado.

Numa tarde, escutei de meu gabinete, que ficava no fim de um corredor, uma gritaria, uivos, urros, portas batendo, barulho de pés pisando rápido e pesado, enfim, um pandemônio. Fui ver do que se tratava. Havia um ajuntamento pelos corredores, as portas dos cartórios abertas os pescoços esticados, as serventes com as costas das mãos na boca. O inevitável tinha acontecido: o nosso servidor entrara no banheiro para realizar sua cerimônia secreta e topou com o advogado de pernas pro ar, com a cara vermelha de sangue e aquele sorriso de Coringa. O resto, dá pra imaginar. Quando se desvencilharam de seus próprios terrores, desceram as escadas em desabalada carreira. Para tomar um ar, acho.

Moral da história: melhor ver o mundo com os pés  no chão.