ACONTECEU NA PRAÇA XV

Meu episódio preferido aconteceu há muitos anos, quando o general Figueiredo era o Presidente do Brasil e veio a nossa cidade para uma visita protocolar e dirigiu-se a um grupo de estudantes que estavam ali avacalhando com os tchauzinhos dele da janela do palácio da Praça XV. Depois que tudo se encerrou com algumas prisões e uns processos ridículos pela Lei de Segurança Nacional, aquela estudantada, que eu conhecia muito bem e que gostava mesmo era de beber cerveja e comer kibes atrás dos Correios, virou referência da resistência democrática.

Resistência mesmo mostrou um juiz de Direito, um alemão batata, mais manso do que um labrador, que costumava todas as tardes, atender a um compromisso regular no centro da cidade, no meio da tarde. Ainda no fervor dos acontecimentos da dita Novembrada, o nosso colega dirigia-se intrépido e apressado em direção à Praça, quando viu que ela estava cercada pela polícia. Barrado, ele contemporizou, mas os policiais fizeram ouvidos moucos e a conversa foi esquentando, até que o colega começou esbravejar e gesticular, citando a Constituição da República, o direito de ir e vir, os princípios fundamentais do Estado de Direito e identificou-se como juiz, despertando a atenção de uns estudantes cansados que estavam por ali e foram se chegando e rodeando a polícia, motivados por aquele divino discurso que estavam ouvindo e começaram com aquela cantilena de o povo unido jamais será vencido! Juntou gente. Os policiais, então, sentiram-se acuados e deixaram meu colega passar, que já estava tão vermelho quanto a bandeira comunista. Ele então, abriu alas e seguiu no seu passo apurado, sob os olhares curiosos e a expectativa dos estudantes e da polícia, e de cabeça em pé e com toda a dignidade, entrou na padaria Brasília, abancou-se e pediu as suas duas empadinhas de camarão.

O que a gente não tinha que fazer naqueles tempos para comer uma empadinha.