BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A SÍNTESE

 Breves,  sim,  porque se vou fazer o elogio da síntese, não posso ser prolixo.

Sê breve, e agradarás, diziam os romanos.  Dom Quixote, mais ponderado do que louco também recomendava a Sancho: “Dize-a, embora, e sê breve no discorrer, que para os outros agradarem, requer-se que por difusos não aborreçam.” Ou, como disse também o estudioso da obra de Cervantes, Francisco Rodriguez Marin, ao discursar por ocasião de uma homenagem que lhe foi prestada: “e agora, cumprindo vosso honroso encargo, vou tratar tão brevemente quanto possa, porque é lei de cortesia não corresponder à honra que se recebe pondo à prova a paciência de quem a outorga.” A brevidade é uma benção, pelo menos para mim tem sido, não só ao elaborar minhas sentenças, assunto do qual tratarei quando puder, mas também ao cuidar de minha assinatura. Abreviei minha rubrica três vezes, e assinatura completa é distinção reservada a altas autoridades (era, agora, com os cartões digitais, logo vamos esquecer como assinávamos). Lembro de uma cena do filme “Nada é para Sempre”, dirigido por Robert Redford em 1992: um garoto, que adorava pescar trutas, tinha que fazer os deveres da escola antes de sair e seu pai, um pastor religioso, encontrava-se na outra sala, preparando o sermão de domingo. O garoto rapidamente preencheu uma folha de papel almaço e foi mostrar ao pai, que olhou a redação e respondeu – metade disso. O filho voltou para o seu lugar e desta vez, demorou um bocado, mas acabou a tarefa e foi mostrá-la novamente ao pai: – metade disso, foi a resposta. Desalentado, voltou à escrivaninha e perdeu o resto da manhã, elaborando uma redação com ¼ do tamanho da original. Mostrou ao pai, que disse: – agora está bom.

 A lição da história é que tudo o que se escreve pode ser reduzido a ¼ do volume, com ganho de qualidade!

Não vale a pena insistir em petições elefantinas, em copiar e colar, em desfiar de fatos intermináveis e complexamente narrados. Se é para ser prolixo, que se faça isso com doutrina e jurisprudência, no máximo, mas não na narrativa fática e tampouco no pedido (como juiz de vara bancária, diariamente via petições iniciais com tantos pedidos quantas são as letras do alfabeto e mais cinco letras repetidas, ou seja, uns 30 pedidos em uma só ação…). Não se ganha nada com isso, nem pessoalmente, e nem com quem a essas petições são dirigidas. A prolixidade, de acordo com minha experiência, sempre atua contra si mesma.

Se o leitor tiver dúvidas sobre as virtudes da síntese, pergunte-se porque o juiz tem um martelinho sobre sua mesa. A martelada é a maior expressão de síntese judiciária.

Este artigo desprovido de qualquer pretensão acadêmica e apenas pretende provocar uma reflexão sobre o tema.

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