EXCESSO DE MELINDRE

 

          Na comarca de I., havia um oficial de justiça extremamente dedicado as suas funções. Para ele, não havia tempo ruim e quando saía um mandado difícil de cumprir, os seus colegas davam um jeito de fazer com que a diligência fosse cumprida por ele, com sua moto Honda, de 125 cilindradas. Às vezes levava tombos nas estradas esburacadas ou enlameadas e chegava no fórum todo sujo e arranhado, mas não reclamava; trazia a contra-fé assinada.  Era miúdo, silencioso e melancólico, falava pausadamente com uma sonoridade grave e extremamente hierarquizado. Costumava chamar-me de excelência em toda e qualquer situação e fazia uma pequena reverência, com uma espécie de temor reverencial. Conheço muita gente que adoraria cruzar com ele várias vezes ao dia, mas para mim esses melindres eram  constrangedores. Eu gostava muito dele e tinha admiração pelo seu afinco  profissional.

 

          Passaram-se uns tempos sem que eu o visse no fórum, mas só fui me dar conta dessa ausência quando o encontrei numa fila de banco. Ele já se desfez naquela formalidade desnecessária e sizuda e eu lhe perguntei por onde andava, que  não o via há tempos.

 

          Ele respondeu, curvando-se um pouco e levantando a mão por cima do ombro apontando com o indicador:

 

          – Eu tive que fazer uma cirurgia naquele pequeno orifício que todos nós temos no meio das costas, excelência.

 

          Por uns instantes, levei um susto, tentei desorientado reconhecer um orifício no meio das minhas costas, até compreender em seguida que foi a forma que ele encontrou para dizer que tinha operado uma hemorróida.