O DIA EM QUE RECEBI UMA HONRARIA

Há oito anos, quando já encaixotava os livros para mudar-me de comarca, recebi um ofício da Câmara Municipal que queria me homenagear com o diploma de Honra ao Mérito.  Nunca gostei de medalhas e comendas. Mas, para não ferir sentimentos, que alternativa? Aceitei.

No dia  designado, a honraria seria concedida na 2ª parte da sessão da Câmara, isto é, quando a maioria do público já estivesse ido embora. Antes de mim, contudo, surgiu uma surpresa. A Câmara decidiu dar outra comenda a um velhinho de uns 90 anos, ex-combatente da 2ª Guerra, porque a prefeitura havia instalado um monumento de homenagem aos cidadãos da cidade que haviam lutado no conflito.

O pracinha, um velhinho alquebrado, mas vivaz, foi levado até a Tribuna por dois netos, e depois de se firmar, tirou do bolso uma folha de papel almaço, onde havia escrito o seu discurso. Tratava-se de um relato de guerra, parecia interessante. O orador, então, relatou que seu pelotão estava acampado na Itália, aguardando ordens para atacar os alemães, mas a coisa estava calma e a companhia passava o dia dormindo e jogando cartas. Numa tarde, entretanto, estourou um morteiro perto do acampamento e logo outro. Houve uma polvorosa geral e o pracinha leu, com todas as letras, que “o nosso capitão saiu de ceroulas da sua barraca, gritando: “salve-se quem puder!”.

O público caiu na cargalhada, batia com os pés no chão, guinchava de tanto rir.

Depois dessa, quem se incomodaria com o meu diplominha de honra ao mérito? A noite já estava ganha (inclusive por mim).

Pensei, então, no lado positivo da experiência. Se eu tivesse recusado a honraria, não teria essa deliciosa história do pracinha para contar.