INTERDIÇÃO A CAMINHO

 

         Numa dessas comarcas do interior, certa vez fui chamado para presidir uma audiência de interdição, que, como se sabe, se resume ao interrogatório do interditando. A causa alegada, em bom português, era a de que o parente era doido varrido. Não parecia, conversou comigo razoavelmente, sabia distinguir o valor das cédulas de dinheiro e o seu poder de compra, respondia às questões com boa prosa e impugnava a acusação de que era louco.

 

         Terminada a inquirição, tirado o papel da máquina, apresentei-lhe suas declarações para que assinasse. O cidadão apanhou a caneta e começou a desenhar um padrão geométrico repetitivo, como os que se encontram naqueles vasos romanos antigos – um “u” virado para cima que se transformava em outro “u” virado para baixo e assim sucessivamente. Quando completou a linha, fez o sinal de divisão silábica e continuou abaixo, indo até quase a metade da folha, onde colocou um ponto.

 

          Ficamos olhando aquilo pacientemente até o fim, quando, então, perguntei a ele:

 

 – O que é isso, afinal?

 

 – É a minha assinatura, doutor – respondeu.

 

 – E o que está escrito aí? – insisti.

 

 – Luís Alves de Lima e Silva, Patrono do Exército Brasileiro.

 

           Até hoje desconfio daquele interditando.