MASSAGEM CARDÍACA

 

 

No Fórum de uma comarca do interior, servida por duas varas, havia um soldado PM que fazia a vigilância do prédio durante o dia. Tinha os seus 40 anos e era um sujeito baixinho e gabola, que usava uniforme de combate, com coturnos polidos. Conversador e solícito, estava ali para servir, pois sua atividade era monótona. Um pouco de ação sempre ia bem.  Certa ocasião, numa audiência na minha vara – matéria de Família, alimentos – o ex-marido, na casa dos 50, logo ao entrar e ver a sua ex-mulher, sentada com um vestido branco rendado e cabelo preso num rabo-de-cavalo, altiva, na condição de credora, avermelhou e já começou a rosnar contra ela:

– o que tu me tirares com a mão esquerda, Deus há de me dar com a mão direita.

– Isso, cidadão- respondi eu, antevendo a conciliação – é assim que a gente tem que encarar essas coisas.

Mas o fato é que o homem foi perdendo a calma de um jeito começou a fugir ao controle e o seu advogado, o doutor M., que era gago, ficava a todo minuto lhe recomendando:

– ca-ca-cacalma!

Chegou o momento em que o homem, que já estava ficando arroxeado de raiva, pediu água, e mandei servi-la com rapidez. Ele bebeu, bateu com o copo na mesa, levantou-se e gritou:

– Aaaai! Eu vou ter um troço!

Em seguida, deu uma olhada para trás com o rabo do olho e jogou-se no chão, “desmaiado”. O seu advogado levantou-se, também e começou a puxá-lo pelos braços como se estivesse com um carrinho de mão:

– And- and- and- anda porra! – e ao puxá-lo,  arregaçou a camisa do cliente para fora das calças, deixando-lhe a barriga à mostra e deu uma boa volta com ele em torno da mesa.

O réu, contudo, continuava desacordado e gemia, soltando uma baba pelo canto da boca, pouca coisa, mas era uma babinha.

Foi, então, que mandei chamar o soldado Castro, que num pulo estava na porta da sala:

– soldado Castro às suas ordens!

– Soldado – disse eu – acuda o cidadão aí no chão, você deve saber alguma técnica de socorro.

O soldado olhou para o réu por uns instantes, hesitou um pouco e finalmente agachou-se e começou a aplicar-lhe uma violenta massagem cardíaca. Interferi logo:

– Mas o que é isso, homem? Você não vê que o coração dele já está acelerado?

O cabo respondeu, erguendo-se:

– Sim senhor. Na polícia, nós aprendemos duas técnicas para esse casos: a massagem cardíaca e a respiração boca a boca. Aqui eu achei mais indicada a massagem.

Que desculpa esfarrapada. Aquele soldado jamais iria fazer um boca a boca, nem que o coronel mandasse, ainda mas com aquela babinha escorrendo.

Então, o cabo o colocou numa cadeira e foi chamar os bombeiros, que ficavam ali próximo. O homem permaneceu prostrado como se tivesse levado um tiro. Eu o observava atento, pois desconfiava daquela olhava para trás antes de se jogar no chão, uma vez que ele primeiro caiu sobre a cadeira, para aliviar o impacto da queda.

Seja como for, o réu voltou a si, repentinamente e veio se aproximando de seu lugar na mesa, ajeitando o cabelo e falando de um jeito afetado:

– O que aconteceoo? Ofendi alguém? Assinei algum chequee?

Foi a minha deixa:

– Não assinou, mas vai assinar, são R$ 2.250,00 (a moeda era outra, mas o valor era exato).                    E antes que ele prosseguisse, já emendei:

– Não se esqueça: tudo o que ela lhe tirar com uma mão, Deus vai lhe dar com outra.

Ele tirou um bloco de cheques que já trazia no bolso, e assinou a dívida tranquilamente. E assim, terminou a audiência.

Para mim, tudo aquilo foi uma pantomima do réu, mas a sua estratégia de nada serviu, exceto para eu concluir que soldado não faz respiração boca a boca assim, de uma hora pra outra.