UM BOM ENCONTRO

 

Sucedeu este episódio na comarca de Jaraguá do Sul/SC, há 12 anos. Corria um processo na vara criminal onde eu era o titular, por tráfico de drogas, com apenas um acusado. Na audiência de instrução e julgamento, a defesa trouxe uma testemunha orientada para mentir e estabelecer uma dúvida quanto à propriedade da droga apreendida e utilizar esse argumento para absolver o réu. Esse tipo de esperteza espera-se que funcione quando  se convence a testemunha de que era, depois do seu depoimento incriminatório, suma da cidade, enquanto se prepara o aditamento da denúncia. O expediente é bastante infantil e poucas vezes dá certo. Naquela ocasião, também não deu. A testemunha, um mulato jovem, um estranho na região, na verdade, era co-autora do crime, mas as provas ainda eram insuficientes para a sua denunciação pelo promotor de justiça, embora o seu nome fosse citado aqui e lá em várias peças do inquérito, mas ela não sabia disso. Foi arrogante, disse que não saíra de casa para mentir e confessou que toda a droga apreendida pela polícia (duas grandes pedras de crack e um grande número de papelotes de cocaína) pertenciam a ela e não ao réu, que nada sabia a respeito e que, inocentemente, lhe hospedara em sua casa.

 

Terminado o depoimento, indaguei se ele tinha certeza daquelas declarações e pela primeira vez ele vacilou; tornou-se amarelo, sorriu nervoso e pressentiu que estava se enredando perigosamente, mas confirmou o depoimento e assinou. Imediatamente, disse-lhe que ele estava preso e que aguardasse sentado no fundo da sala, enquanto eu ditava o despacho de prisão preventiva. O advogado ainda tentou intervir, nervoso, mas lembrei-o de que ele advogava para o réu e não para a testemunha. Ao fim do processo, ambos os réus foram condenados a 5 anos e 4 meses de reclusão, em regime fechado. Depois de cumprida a pena na forma da lei, o jovem recebeu liberdade condicional (ou progrediu ao regime aberto, não recordo exatamente, pois eu concedia a progressão e se o promotor não recorresse, ficava assim).

 

Certo dia, num sábado à tarde, eu caminhava pelo centro da cidade e quando atravessava a praça, alguém me chamou de longe duas vezes e acenou. Era o jovem que eu havia condenado. Aproximou-se de mim sorrindo, com uma sincera expressão de alegria por ter me encontrado. Trazia uma mochila nas costas e começou a explicar-me que acabava de vir da cidade de Blumenau  e eu perguntei se ele estava trabalhando e ele repetia apenas que estava voltando daquela cidade, até que eu percebi que ele queria mesmo era conversar comigo e não estava trabalhando. Quando perguntei mais diretamente, ele suspirou fundo  e reconheceu que não tinha trabalho. Eu lhe disse apenas que ele procurasse o emprego, pois era uma condição legal. Ele tranquilizou-se, sentiu-se aliviado e fez questão de falar comigo um pouco mais. Depois que nos separamos, pensei sobre a ironia de nosso encontro e me convenci de que eu, o homem que o tinha implacavelmente mandado para a cadeia, era provavelmente a única pessoa que ele se sentia feliz em rever naquela cidade.

Devo reconhecer que eu também gostei de nosso encontro.