NINGUÉM SE BANHA NO MESMO RIO DUAS VEZES

Ninguém se banha no mesmo rio duas vezes  

 

Isso é o que dizia Heráclito, e numa ocasião tive a oportunidade de comprovar o alcance desse aforisma, em que, nem o rio é o mesmo e nem o homem tampouco. Encontrava-me eu no início da carreira em uma comarca do interior, com minha máquina de escrever (máquina de escrever é um equipamento de ferro, de quase 10 quilos, com um rolo onde se enfiava uma folha de papel e se datilografava num teclado organizado de forma ascendente, fazendo-se a impressão por meio de cacetadas físicas das letras em uma tira de tecido de guarda-chuvas umedecida de tinta preta) a fazer sentenças. Certo dia, datilografei uma sentença criminal, e, para meu azar, extraviei o documento. Isso é coisa irritante, tanto naquele tempo, como hoje, perder uma sentença. Deixei o processo descansar e acabei me esquecendo completamente dele. Uns três meses depois, refiz a sentença, condenatória. Passaram-se muitos meses e encontrei perdida bem à vista, sobre uns livros na estante, a sentença original. E ela era absolutória. Considerando o contexto, é bem provável que o tribunal reformasse a condenação, com o benefício da dúvida. Todavia, nunca descobri se o réu apelou.

Não foi um erro de direito, foi uma visão diferente do mesmo fato, uma avaliação antagônica de mim comigo mesmo.

Sempre me surpreendo quando lembro desse assunto.