O BULLYING DE NEYMAR E A CERVEJA DE ROMÁRIOS

A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados aprovou requerimento ao Conar e à presidência da república recomendando a retirada do ar de propaganda de guaraná em que o jogador faria “bullying” contra torcedores estrangeiros. Interessante isso, porque até agora, a Câmara não tomou – e nem vai tomar – qualquer medida contra o deputado Federal Romário, que no carnaval deste ano, fez apologia de bebida alcoólica para um fabricante de cerveja. O assunto causou rumor na imprensa e o deputado alegou que quem fez a propaganda foi o jogador de futebol e não o político, argumento de uma sutileza tão sensacional quanto ao do assassino que usava uma máscara do Batman e insiste em que o crime foi cometido pelo Morcego, não por ele.

Desconhecendo, ou fazendo pouco caso (pois deveria conhecer) da do grave problema da violência que está associada ao uso de bebidas alcoólicas – respondendo por mais de 50% dos casos de acidente de trânsito com morte e 52% das agressões familiares (Carlini EA, Galduróz JCF, Noto AR, Nappo SA. I Levantamento domiciliar sobre o uso de drogas no Brasil: estudo envolvendo as 107 maiores cidades do país – 2001. São Paulo: CEBRID – Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas: UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo; 2002. p. 480-2) – afora as nefandas consequências que traz para o próprio consumidor e o custo que isso representa para o Estado em termos de tratamento médico e hospitalar (a estimativa de dependência alcoólica no Brasil é de 12,3% da população, conforme a mesma pesquisa acima citada), o deputado não teve o menor problema em faturar o seu cachê com uma “gelada” na mão. Desconheceu, também, ou ignorou, o sentido ético da chamada Lei Murad (Lei 9.294/96), que em seu artigo 4º proíbe a propaganda comercial de bebidas alcoólicas no rádio e na televisão entre 6h e 21h, embora se refira a destilados com teor alcoólico superior a 13 graus. Ignorou, também o projeto de Lei 4860/12, do deputado Laércio Oliveira (PR-SE), que proíbe a propaganda comercial de bebidas alcóolicas em meios eletrônicos (rádio e TV), qualquer que seja o seu teor de álcool, que tramita na mesma Casa onde exerce suas funções. Sua conduta, aparentemente inofensiva, é, ao contrário, plena de significado negativo. Aliás, pouco tempo depois dessa propaganda, Romário foi flagrado dirigindo aparentemente embriagado e se recusou a fazer o teste de bafômetro, como foi também amplamente noticiado. Seu discurso não engana ninguém.

À parte isso, não compete a agentes políticos – servidores do Estado – fazerem apologia de bebidas alcoólicas. O eleitor não elege um deputado para esse fim. Se ele quer jogar bola na praia e beber cerveja, deve viver de suas glórias passadas no esporte e não ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados, recebendo dos cofres públicos os seus vencimentos. O deputado  quebrou o decoro parlamentar e atentou contra a dignidade de seu cargo. Diz o artigo art. 244, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados que “o Deputado que praticar ato contrário ao decoro parlamentar ou que afete a dignidade do mandato estará sujeito às penalidades e ao processo disciplinar previstos no Código de Ética e Decoro Parlamentar, que definirá também as condutas puníveis.” Possivelmente, nada deve acontecer.

O fato é que a conduta do deputado Romário não tem precedentes na história da Câmara Federal. Segundo a Folha de São Paulo, apenas outros dois políticos fizeram propagandas comerciais, Brizola e Paulo Maluf, ambos do sapato Vulcabrás, e não estavam no exercício de mandato político.

Enfim, Romário perdeu uma grande oportunidade de usar seu prestígio de ídolo do esporte para orientar e conscientizar os jovens acerva dos malefícios do álcool e não estimular que aqueles jovens, ainda em processo de consolidação de sua personalidade se espelhem nele para beber. Ou seja, fez exatamente o contrário do que deveria ter feito e ainda ofendeu – impunemente –  a dignidade do cargo que ocupa. E a Câmara se preocupa com Neymar, que é inofensivo, até agora e apenas fez uma propaganda de mau gosto.