UM CORAÇÃO CORINTHIANO

Havia no fórum um vigia terceirizado que amava o Corinthians e seu assunto preferido era falar de futebol. Era avaiano e como tal, detestava o Figueirense, mas seu coração era mesmo todinho do clube paulista. Era um negro de rosto redondo como uma bola oficial, quarentão mas com feições de criança, cabelo raspado, grande e forte, com uma barriga protuberante. Era educado e solícito, um gentleman, mas se houvesse uma provocação futebolística, o homem se soltava e vinha abaixo com todo aquele vocabulário padronizado de torcedor obcecado, cheio de verdades absolutas e para os outros, só desdenho e deboche. Se não o tirassem do sério, era uma força da natureza a serviço do Judiciário.

Competia-lhe, quando ficava no turno da noite, hastear, no dia seguinte, os pavilhões nacional, estadual e municipal e foi-lhe ensinado direitinho como se prendia uma bandeira nos cabos e o horário dessa tarefa, enfim, tudo conforme os livros. Aconteceu, em 2011, do Corinthians ganhar um campeonato de destaque, não lembro qual, e o nosso vigia estar de serviço naquela noite. Então, num momento de fraqueza, ele, ao realizar a tarefa das bandeiras no início da manhã, no lugar da bandeira nacional, amarrou uma toalha de banho com o brasão corintiano e levantou-a no mais alto mastro e depois ficou olhando aquele negócio tremular entre as outras bandeiras, na frente do fórum, rindo e tirando fotografias junto com um amigo, feliz da vida.

Mas sempre tem um estraga-prazer para ver e o vigia foi dedurado à secretária, que levou o caso com boa gana ao conhecimento da juíza diretora do foro, que nunca teve bom humor ou compaixão, e despachou logo o vigia. A empresa terceirizada, para não demiti-lo, transferiu-o para o almoxarifado central, onde a  fama precedeu sua chegada e onde era constantemente mortificado com a pergunta “tu és o da bandeira?”, com o que respondia de mau humor “que bandeira, rapaz? Sei lá eu de bandeira”.

O nosso vigia ainda tentou uma última cartada; no dia seguinte a sua dispensa, foi pedir ajuda a um outro juiz mais velho e ponderado, o qual, todavia, custou a acreditar no que via, pois o nosso cidadão entrou no seu gabinete usando uma camisa oficial do time do seu coração.