A FORÇA DA TESTA

Fiz um júri há uns 10 anos, um dos últimos. O caso era rumoroso e o plenário estava lotado. O corpo de jurados foi escolhido como de praxe e os demais, dispensados, foram-se todos embora. Um dos jurados era um negro de uns 45 anos, que sentou na primeira das duas fileiras do cancelo onde ficavam, quer dizer, ficou com a maior visibilidade possível para os advogados e o auditório. Ao seu lado, sentou-se um outro jurado, de olhos inquietos. Começam os trabalhos e tudo corre que é uma maravilha. Entretanto, uma hora depois, o primeiro jurado começou a ameaçar cair no sono e a coisa foi tomando conta dele de um modo que era triste de ver o esforço do restinho de consciência dele para manter os olhos abertos. Arqueou de tal forma as sobrancelhas e as rugas da testa, que parecia que ambas estavam segurando todo o peso do corpo do homem. E os olhos se fechando e a cabeça dando aqueles trancos e a testa segurando o jurado com toda a força. Nunca pensei que uma testa pudesse ter tanta musculatura. Era uma batalha tremenda. Quem olhasse de repente, teria a impressão de que ele estava completamente embriagado, pois tinha a exata expressão do bêbado que discute consigo mesmo. O jurado que estava ao seu lado estava de olho fixo em mim e quando percebia que eu estava olhando para ele, virava a cabeça para seu companheiro e depois rapidamente voltava a me olhar. Fazia isso repetidas vezes. Queria me mostrar de qualquer jeito a desgraça que estava acontecendo ao seu lado. As pessoas da platéia mais próximas começavam a sorrir e a apontar com a cabeça o jurado dorminhoco. A coisa estava ficando feia, então, chamei para perto a minha escrivã, que era formada em fisioterapia e sabia de tratamentos alternativos e mostrei a cena: olha lá, dona Claudete, o homem vai acabar com o júri daquele jeito! E ela olhou, pensou e respondeu: doutor, eu ouvi dizer que nesses casos, a pessoa deve morder a ponta da língua, que espanta o sono. Então, Claudete, faz um bilhetinho e passa até ele. Assim foi feito, o bilhete foi passando pelos assentos dos jurados e chegou no dorminhoco, que o recebeu com um cutucão do seu vizinho inconformado e curioso para ler a nota. Fiquei observando o jurado ler o bilhete, colocá-lo nas pernas, olhar para a frente por alguns instantes e crau!, aplicou-se, de fato, uma baita mordida na língua. Acho que a mordida foi forte demais porque ele estava meio dormindo e não dosou a pressão adequadamente. Mas, sono é sono e o efeito durou uns 10 minutos apenas e o homem já cairia no chão não fosse o esforço de sua testa.
A situação, então, era a seguinte: tínhamos dois jurados que não estavam participando do julgamento, o dorminhoco e seu vizinho. O dorminhoco porque era um zumbi e o vizinho porque só prestava atenção nele.
Acabou-se logo a fala da defesa e rapidamente interrompi a sessão para um café. Fui até o jurado e perguntei qual era o problema dele: estava doente, tinha comido demais, bebido, ou o quê? Não via que aquela soneira poderia anular o júri, se o promotor ou o advogado reparassem nele? Não, não era nada, era só sono mesmo, disse. Pedi-lhe, então, que fosse até o banheiro e passasse bastante água no rosto. Cerca de 15 minutos depois, a sessão não podia reiniciar-se porque o nosso jurado não aparecia. Mandei o oficial de justiça procurá-lo no banheiro e ele realmente lá estava, praticamente dentro da pia. Apareceu todo molhado e animado para o resto do julgamento e com toda aquela disposição renovada não deu meia hora, sua testa já estava gemendo e suando para segurar o dono, para indignação do seu vizinho de cadeira, que não tirava os olhos dele.
Foi uma sorte aquele júri ter chegado ao fim. Na sala secreta, a resposta a todos os quesitos foi 6 a 1. Nunca soube se o voto discordante foi do primeiro jurado ou de seu vizinho.