GOLPISTA INCORPORADO

Houve um surto de golpes de bilhete premiado e suas variações na comarca de J. Numa dessas variantes, um sujeito na casa dos 55 anos, mal vestido, chinelo de dedos com os pés sujos e unhas grandes, singelo e tímido como o mais matuto dos matutos, dizia que sua mãe havia ganho uma bicicleta numa rifa que determinada loja em que havia feito compras e ele estava na cidade para reclamar o prêmio, mas estava perdido. Essa era a conversa que jogava na vítima. Em seguida aparecia o seu comparsa, “descobria” que o bilhete na verdade era de mega sena e que estava premiado. O truque consistia em irem os dois a uma loja lotérica e repetirem os números vencedores do concurso anterior numa nova aposta. Depois, convenciam a vítima a ligar para um 0800 da Caixa Econômica, que repetia os números vencedores, mas do concurso anterior. Como a gravação repetia os mesmos números do bilhete que a vítima tinha nas mãos, o golpe já estava praticamente consumado. Então o portador do bilhete começava a lamentar-se:

– eu sou do mato, não sei desse negócio de banco, quero ir pra minha casa, minha mãezinha está me esperando, sou até analfabeto, pelo amor de Deus me ajudem, comprem esse bilhete de mim, vendo baratinho e vou embora (o baratinho era cerca de seis mil reais).

O outro golpista já puxava um maço de notas e intimava a vítima:

– aqui está minha parte, onde está a tua, que nós não vamos perder de comprar, né? E ainda ajudamos o amigo aqui a voltar pra casa feliz.

Daí, era só seguirem até a Caixa Econômica e a vítima raspar a sua poupança.

Depois de aplicarem alguns golpes, os dois foram presos em flagrantes. No interrogatório do primeiro golpista, ele se encolheu na cadeira, ficou olhando para as mãos e começou a cantilena comigo:

– doutor, eu sou do mato, não sei de nada, não sei ler, minha mãe tá sozinha, pelo amor de Deus, eu quero ir pra casa…

Fiquei surpreso com o caradurismo daquela encenação e disse:

– Escute, meu amigo, você não vai querer aplicar um golpe em mim também , vai?

No mesmo instante, o homem desincorporou; aprumou-se na cadeira, pigarreou, ajeitou o cabelo, empostou a voz e confessou o crime cantando como se fosse um canário, com toda a clareza de raciocínio que os golpistas tem.