A MULHER DO ESTELIONATÁRIO

Quando exercia funções criminais, deparai-me com um caso de estelionato praticado por X., com o uso sofisticado de clonagem de cartões de crédito. Aquela já era a segunda vez que ele respondia um processo em minha vara, e da primeira, já fora condenado. Como todo estelionatário que se preze, já havia dado um grande número de golpes bem sucedidos, daqueles que não se tem notícia, e isso lhe permitiu acumular um bom patrimônio e uma linda mulher. Essa mulher não era propriamente uma mulher, era uma fêmea apenas, com o corpo construído especialmente para dar prazer, o que, aliás, ela fazia profissionalmente antes de se casar (de papel passado, parece) com o conhecer o nosso golpista (o que um juiz criminal não fica sabendo…). Esse cidadão tinha um ar abobalhado, sempre com um sorriso aparentemente ingênuo no rosto redondo. Não fazia o tipo pelo qual as mulheres se apaixonam, penso eu. E ele casou-se com aquela mulher com um corpo espetacular, sem reparar que o rosto mostrava aquela dureza de que resultavam todas as frustrações da vida, aquela maldição de ser escultural e ter origem humilde. Seu sorriso era desagradável e falava mal, expressava-se rudemente.

O falsário a exibia como um troféu, o que ela era, mas um troféu de que ele gostava bastante. Naquele tempo não havia Facebook, só o Orkut e o golpista não se continha e publicava as fotos de sua mulher na beira da piscina, fazendo poses sensuais em minúsculos biquínis. Acrescenta fotos suas montado em seus outros troféus, uma moto de grande cilindrada e com cada pé na roda dianteira dos dois automóveis que possuía, com os textos mais patéticos possíveis. Naquele tempo, ele havia sido preso em flagrante, ou teve sua preventiva decretada, não lembro bem e o promotor de justiça requereu o arresto daqueles bens exibidos na página da dita rede social. A medida foi deferida e cumprida prontamente pelo oficial de justiça, que arrebanhou tudo. Houve habeas corpus impetrado sem sucesso e pedidos de liberdade provisória indeferidos. A cada ato do processo, a esposa do réu aparecia na sala de audiência, mas usando saias tão curtas que pareciam terminar no cós. E bustiês. E sapatos de salto alto sem meias. Lembrava a Sharon Stone no filme “Instinto Selvagem”, só que realmente mais selvagem. Os policiais ficam indóceis, trocavam olhares, reparavam em mim e no promotor para ver se éramos solidários, essas coisas. Era realmente impossível não olhar para ela. Nos corredores e na assessoria, não havia quem não comentasse. Apareceu 3 vezes e na última, quis falar comigo a sós, daquele jeito. Pois não. Mal conseguiu dizer o que queria, possivelmente por nervosismo. Tentou sorrir, mas parecia que sentia dor. Foi uma entrevista curtíssima, que terminou com sua queixa de que não tinha mais dinheiro, não tinha como se manter. Essas coisas são constrangedoras para um juiz. Mas era isso, o dinheiro, no fundo era uma questão de dinheiro. Ainda bem que ela não fez como a outra Sharon Stone que foi com a mãe ao meu gabinete pedir pelo irmão preso por tráfico de drogas. Depois de um instante de silêncio, ela pediu para a mãe sair que queria falar comigo. A senhora saiu rapidinho, porque já adivinhava o que viria a seguir. A moça, então, cruzou as pernas torneadas e começou a balançar uma delas, enquanto perguntava com olhar lúbrico, “se não há nada que eu possa fazer para ajudar meu irmão”. Infelizmente, não, dona.
Mas, voltando ao caso do falsário, o processo terminou, a condenação foi inevitável, a pena alta, com pesadas circunstâncias judiciais, reincidência e qualificadoras que esqueci, sem direito a recorrer em liberdade. Mais habeas corpus infrutífero e o réu foi ao regime fechado ou semi-aberto. A mulher pediu o divórcio e simplesmente sumiu, o que deve ter sido o pior dos castigos do réu, mas sinceramente, acredito que tenha sido melhor para ele. É claro que ele não compartilhava dessa opinião. Cumprida a pena, o cidadão colocou nota em jornal local, acusando-me de ser traficante de drogas e pouco depois, houve duas ameaças anônimas de bomba no fórum, dirigidas especialmente a mim (“de hoje ele não passa”). No fundo, achei que era compreensível, embora não justificável. Claro que a questão da bomba sempre ficou no ar.