EMBARGOS AURICULARES

Ouvir os chamados “embargos auriculares” são um dos ônus da profissão; é preciso ter paciência e compreender, ter a urbanidade de escutar, mas a verdade pura e simples pode ser resumida numa única pergunta, que, aliás, já fiz algumas vezes: “tudo isso que o senhor está me dizendo agora já não colocou por escrito nas suas petições?”. Os advogados tem uma sensação de que com esses “embargos” vão conseguir chamar a atenção do juiz para aspectos importantes da causa e se baseiam na errada sensação de que ele ou seus auxiliares não vão ler o processo antes de prolatar a sentença. Essa impressão é completamente falsa;  é evidente que o juiz lê o pedido e a resposta, e a reconvenção ou o pedido contraposto e examina os documentos a que se relacionam. As falhas – e as há – não decorrem do desinteresse pelo processo e sim da falibilidade do ato de julgar, que, nesse caso, são sanadas pelos embargos declaratórios, ou pela apelação.

O que incomoda nos embargos de ouvido é a tentativa de convencer ao vivo, on line, de provocar com sutileza a discussão de pontos da causa com o juiz, é o virar o processo, o folheá-lo, e mostrar os documentos, o comparar documentos, enfim, fazer na frente do juiz tudo aquilo que o que ele mais quer é fazer sozinho em seu gabinete. Nunca vi um desses embargos servir para alguma coisa, pelo menos comigo e imagino que com meus colegas também. Aliás, o juiz sequer está mentalmente preparado para o assunto; tem que limpar o espírito para reinicializar-se e tomar conhecimento de um processo que, muitas vezes, nunca viu na vida e que veio de uma sessão de conciliação infrutífera direto para o escaninho de sentenças, ou é complexo demais para que aquela abordagem instantânea chegue a algum lugar. É quase impossível comungar do conhecimento que o advogado tem do feito para poder se interessar realmente por ele, de supetão, quando o causídico entra em seu gabinete com ele debaixo do braço. Não raras vezes, esses embargos são até deselegantes e inadequados, mas invariavelmente enfadonhos. Mais ou menos como aquele conhecido que encontramos na rua quando estamos com pressa e que resolve contar uma história na qual não temos o menor interesse em ouvir naquelas circunstâncias. Acho esses “embargos” realmente improdutivos.

Melhor estratégia tem o advogado que solicita uma entrevista com o juiz simplesmente para pleitear preferência no julgamento do processo. Esse, sim, sabe onde quer chegar. O advogado que se dá ao trabalho de deslocar-se até o fórum para conversar com o juiz está demonstrando um especial interesse pela causa e qualquer juiz vai perceber isso.