A VAQUINHA PRESTATIVA

Provocação a um colega por conta de um fato verdadeiro:

Comarca de X, 22 de janeiro de 2.002.

Prezado dr. X:

Surpreendeu-me, sobremaneira, receber sua missiva datada de 15 do corrente e constatar o desconhecimento de V. Exa. de um de nossos mais antigos programas sociais, denominado “A vaquinha Prestativa”, razão pela qual permito-me a oportunidade para esclarecê-lo.

Já há muitos anos, o Poder Público Municipal busca integrar as suas populações de baixa renda, numa parceria com os loteadores desta cidade, num programa que inicialmente se chamou “Grama Alta, Grana Curta”, que visava impedir que o mato tomasse conta dos lotes e desmerecesse nosso título de cidade limpa e ordeira. Depois de muita pesquisa, descobrimos que a vaquinha era nosso cortador de grama natural, tendo a vantagem de não consumir energia e assim, contribuir com a política de racionamento de eletricidade e com a vantagem de fornecer leite em abundância para as famílias, como contrapartida do Poder Público.

Seu Abraão foi pioneiro nesse trabalho e a vaquinha dele, com toda a certeza, muitas vezes pastou o mato rasteiro que ameaçava o lote de V. Exa. Abraão é indivíduo humilde, que se instalou no loteamento antes que seus vizinhos com dois carros na garagem e portões eletrônicos aparecessem, depois que toda a infra-estrutura estava já instalada.

O Município, então, entregou-lhe um quadrúpede, com o qual ele providenciava a limpeza do loteamento e obtinha o leite necessário para alimentar seus filhos, já que não possuía recursos para comprar laticínios nos supermercados.

A atual vaquinha que hoje circula livremente pela rua é neta da primeira alimária prestativa e está devidamente cadastrada no nosso setor de patrimônio. Essa assertiva poderá ser conferida por V. Exa. pessoalmente, pois debaixo da axila traseira direita do animal está gravado o nosso selo de tombamento.

Durante muitos anos, o “famoso” seu Abraão também catou os papelões que eram despejados no Loteamento por munícipes irresponsáveis, mantendo-o limpo e livre de pequenas pragas. Hoje, curiosamente, para alguns, que queremos supor, são minoria, essa atividade já não é de bom tom e o pequeno cidadão, outrora útil, hoje enfeia o loteamento… Para esses, certamente, o seu lugar é na cadeia, para onde devem ir os despossuídos e miseráveis!!

Contudo, Dr. X, o sr. Abraão também é uma pessoa “ordeira e respeitadora da lei”, que, mesmo sem o alto salário de um funcionário do Estado, sem auxílio-moradia, sem 14º/15º e outros privilégios, consegue conviver bem com seus vizinhos, o que deveria servir de inspiração a V. Exa., que, se não nos falha a memória, anda criando polêmica na Câmara de Vereadores por causa do nome de sua rua.

O “famoso” seu Abraão, apesar de se sentir incomodado com o monóxido de carbono e manchas de óleo despejados contra sua propriedade pelos vizinhos que aceleram seus carros nas garagens, não reclama. Pelo contrário, sente orgulho de ver que os recursos dos cofres públicos pagos a seus servidores embeleza a rua com casas e automóveis de luxo e ele permanece, feliz, catando os carrapatos e limpando os cascos de sua “vaquinha prestativa”, para alegria de suas crianças, que esperam pelo café da manhã.

Entenda, caro Dr. X, esta missiva não pretende ser uma crítica. É apenas um “desabafo”. A partir desta data estaremos estudando a possibilidade de matar o animal de seu Abraão, impedí-lo de trabalhar, e colocar suas crianças numa creche, onde, mais tarde, serão destinadas à adoção por pesoas de melhores posses.

“Cordialmente”,

Y.

PREFEITO MUNICIPAL