EVANGÉLICOS, CULTOS AFRO-BRASILEIROS E A QUESTÃO DA TOLERÂNCIA

O bispo Edir Macedo conversa com o demônio em pessoa como se estivesse na mesa de um bar, e depois o exorciza sem a menor cerimônia, com direito a recursos de gritos, urros e música sinistra, providenciados pelo sonoplasta. Já o bispo Valdemiro Santiago curou uma cega de nascença no palco, a qual já respondeu que a cor de sua gravata era vermelha. No mesmo programa, curou 23 cadeirantes, que levantaram suas cadeiras no meio da multidão para provar. Há outro pastor que joga no chão todos a sua volta com um simples movimento de seu paletó. Vi essas maravilhas de um leito de hospital, mas, de minha parte, continuei internado até que a medicação fizesse efeito. Mas não há motivo para alarme contra o nível da auto-estima nacional; esse tipo de coisa não é privilégio de brasileiros, a Europa está cheia desses milagreiros e muitos dos nossos pastores caboclos se inspiraram naqueles exemplos. Há um, autor de best-seller, que tem a terapia do riso: dá uma risadinha forçada e todo mundo cai num riso incontrolável; quem tenta resistir, fica todo torto. É chamado de “a unção do riso”. Agora, comenta-se sobre o caso que envolve as igrejas evangélicas e os cultos afro-brasileiros (macumba e candomblé, por exemplo). Decidiu o colega magistrado que uma religião precisa reunir certos requisitos para ser assim considerada, como ter um texto básico (como a Bíblia ou o Corão), uma estrutura hierarquizada e a crença numa divindade suprema, para ter proteção legal. Por isso, não deferiu pedido do Ministério Público que requeria a retirada do Youtube de vídeos de pastores evangélicos que pregavam a intolerância racista para com esses cultos.
Meu objetivo não é questionar a decisão e sim refletir sobre o tema da intolerância. A verdade é que toda essa lambança promovida pelas igrejas evangélicas é feita em nome de Jesus (seu Deus único) e com o texto sagrado nas mãos (A Bíblia). A estrutura hierárquica está presente, pois há pastores e bispos. Aliás, são justamente as religiões que preenchem todos esses requisitos mencionados pelo magistrado que tem se trucidado ao longo da história: parece que o problema reside justamente na crença do Deus único; gregos e romanos que adoravam centenas de deuses nunca se incomodaram com isso e até toleravam o Deus de Abraão, mas este não tolerava as múltiplas divindades alheias. Macumba e candomblé não enganam a boa-fé de ninguém, não são obcecados por dinheiro. A liberdade de expressão religiosa dos evangélicos é baseada na formula “como explorar as necessidades das pessoas para fazer dinheiro”. Há inúmeros vídeos no Youtube que provam isso. O fato é que essas igrejas evangélicas atraem milhares, milhões de pessoas no Brasil, que de uma forma ou de outra se sentem confortadas no interior desses templos, mesmo assistindo às barbaridades que desfilam diante de seus olhos. Pessoalmente, estou convencido de que a maioria dessas pessoas não acredita nas estripulias milagrosas dos pastores e em aparições do diabo por todos os lados, mas acredito que essa representação acaba lhes aliviando as tensões existenciais. A super hierarquizada religião católica apostólica romana, há cem anos, exigia três milagres para canonizar um santo, depois reduziu para dois e, atualmente, apenas um, e por intercessão (!). Alguém que ficou curado por causas desconhecidas e havia rezado para um papa morto, pode ter carimbado a promoção canônica dele. A ciência tem atrapalhado os planos da Igreja. Mas seus fiéis continuam venerando o Santo Sudário como a verdadeira mortalha de Cristo, embora testes de carbono 14 já a tenham datado do século XV. A Igreja venera também duas cabeças de João Batista, 13 prepúcios de Jesus, penas e ovos do Espírito Santo, etc. Os umbandistas e adeptos da macumba não fazem nada disso. Frequenta suas sessões quem quiser e não há nenhuma estrutura voltada para a exploração financeira de seus membros, mas argumenta-se que não é religião. No fundo, tudo é êxtase e revelação. Os esquemas da burocracia jurídica não podem resolver todas as questões. Há casos em que deve prevalecer a razão e o bom senso. Isso mortifica muitos estudantes de direito, advogados e mesmo juízes, que estão sempre se perguntando “qual é o artigo?” para poderem fundamentar suas peças. Se for para seguir esquemas, o espiritismo e o agnosticismo religioso também podem ser ameaçados livremente porque não se encaixam na fórmula. De minha parte, a regra de ouro em tema religioso e na vida em geral é a de que, se aquilo que meu vizinho faz não me prejudica, não cerceia direito meu ou de outros, deixe fazer. Era esse o conselho de Ian Fleming, o criador de 007: viva e deixe vier.
Portanto, fazer apologia da violência e pregar intolerância religiosa (ou de culto) é um ato de intolerância em si mesmo, e por essa razão, deve ser eliminado.