O PRESO ALEGRE

Havia um preso que era o mais manjado pela polícia, sempre há esse preso. o sujeito em questão tinha cabelos negros ruins e olhos negros, magro e olhava de esguelha. Tudo para ser um assassino a sangue frio, mas que nada, era um ladrão incompetente e que gostava de se meter em confusões, esfregar uma faca num poste, mas nada além disso. O problema com ele é que não conseguia ficar livre dessas encrencas e estava sendo autuado em flagrante. Não gostava da polícia, fazia discursos, sentia-se injuriado, mas gostava de mim e era apaixonado por uma confissão. Quando eu entrava na sala de audiência, lá estava ele sentado na cadeira do réu, esfregando as mãos e sacudindo-se inquieto e quando me via me soltava um grande e amistoso sorriso. Era uma genuína felicidade para ele quando eu mandava que fosse desalgemado, poder ajeitar a cadeira com as mãos da melhor forma. Queria confessar, não trocava uma confissão por nada, acho que nem pela absolvição, e só tinha uma curiosidade, quantos anos iria pegar, no que, aliás, não se diferenciava da maioria dos ladrões. Então começava e falava como uma lavadeira, encaixava até umas qualificadoras que haviam passadas desapercebidas pelo promotor de justiça e não disfarçava a alegria de estar ali conversando comigo. Apresentava as coisas de um modo que faziam o crime parecer uma fatalidade. Eu costumava corresponder a sua expectativa, perguntando-lhe alguma coisa pertinente a sua vida, família, e terminava anunciado de antemão a pena que lhe seria aplicada e o regime prisional, bem como já informava que iria proceder à unificação das outras penas que ele tinha para cumprir. Era o tipo de preso sempre cometia o novo crime em uma saída temporária ou quando se encontrava no regime aberto. Na conduta dele se aprendia uma grande lição, a de que às vezes, um indivíduo só se torna um cidadão quando comete um crime, quando passa a gozar de todas as prerrogativas do devido processo legal e das garantias inerentes à rapidez do processo e ao respeito de sua integridade como pessoa humana. Quando topava com ele dentro do presídio, o homem se esmerava, e me escoltava para lá e para cá, como se eu fosse Dante guiado por Virgílio nos círculos do inferno; fazia a apresentação dos novos detentos, indicava o motivo da prisão e gostava de mostrar a organização da cela que compartilha com outros três. Era uma espécie de mestre de cerimônias. Quando lembro dessas inspeções, me vem à memória aquele personagem do Brad Pitt, no filme Os 12 Macacos, de Terry Gillian, apenas menos acelerado. Na última vez em que fui àquela comarca fazer uma visita, quando me preparava para abrir a porta do carro, bateram-me nas costas com uma força meio ansiosa, por assim dizer e era ele, sorrindo e feliz, me mostrando a camisa que usava e que segundo ele, eu lhe havia presenteado, fato de que não me lembro até hoje. Disse-me que havia aberto um carro de lanches nas imediações do porto e que já estava indo para o trabalho. O oficial de justiça que estava por ali, confirmou. Talvez tenha finalmente percebido que é melhor ser um cidadão, fora da cadeia também.