CHICO PICADINHO

No presídio de J. cumpria pena um preso que havia matado e retalhado a mulher. Por isso, ganhou o apelido de Chico Picadinho. O crime ocorreu na cozinha e o homicida, logo depois, resolveu acabar com a própria vida usando a mesma faca com a qual tinha matado a esposa.  Segurou a faca com as duas mãos, apontando-a para o peito e cravou-a com toda a força. Entretanto, acertou o osso do esterno e a lâmina ficou presa ali. Tentou puxá-la, para repetir a tentativa, mas doía demais; tentou cravá-la mais fundo, mas doía mais ainda. Depois de algumas escaramuças mal sucedidas nesse vai-e-vem, desistiu e chamou a polícia ele mesmo, pelo celular. Quando os policiais chegaram, encontraram-no sentado na mesa da cozinha, com a faca cravada no peito e o corpo da mulher ao lado, todo estraçalhado. O crime ficou famoso na região.

Esse preso, como outros homicidas passionais, era o tipo perfeito para trabalhar na cozinha de presídios, porque tem longas penas a cumprir, tempo de sobra para aprender a cozinhar e, geralmente, são de boa têmpera, ao contrário dos ladrões e estelionatários, que formam o grosso da população carcerária, mas permanecem por pouco tempo e não tem muita apetência pelo trabalho. Chico Picadinho, então, foi trabalhar na cozinha do presídio de J. Uma vez por mês eu costumava fazer inspeções completas naquele estabelecimento e era bastante respeitado pelos presos, que tinham muita confiança em mim. Por isso, o pessoal da cozinha fazia questão de saber o dia da visita para preparar uma refeição especial. Era uma desfeita fazer a inspeção e não almoçar.

Numa dessas inspeções, topei com um pessoal ligado à prefeitura da cidade, psicóloga, assistentes sociais e uma diretora da associação comercial, que gerenciava alguns projetos no âmbito da execução penal. Estendi o convite de almoço a elas, que aceitaram, era uma oportunidade para conhecer melhor o funcionamento do preparo das refeições gerais. A cozinha não era lá essas coisas, mas havia higiene e sentávamos numa mesa comprida de madeira com um banco de cada lado, do mesmo tamanho da mesa.  No transcorrer da refeição, uma assistente social sentou ao meu lado e começou a fazer críticas ao sistema penal, que não corrigia o preso, funcionava precariamente, as condições eram sub humanas, etc. (na verdade, o presídio de J. era um dos mais organizados do país). Era um discurso monótono e descontextualizado. Enquanto isso, os presos se esmeravam na educação, ofereciam bolinhos com uma mão nas costas, pedindo licença, era bonito de se ver. O prato principal do almoço era carne assada de forno e quando aquele enorme pedaço de boi foi colocado sobre a mesa, um dos presos aproximou-se com uma faca enorme, com um lombo de quase 10cm e cortou um enorme bife, aparando-o com o lado da lâmina e ofereceu-o a minha companheira de banco, que agradeceu toda simpatia e não parava de criticar o sistema. Então, virei-me para ela e falei baixinho: a senhora sabe quem foi que lhe serviu esse belo pedaço de carne? Não. Foi o Chico Picadinho. Pronto. A assistente social perdeu o apetite, pretextou compromisso urgente e não permaneceu na cozinha mais três minutos, sem fazer mais nenhum comentário.