DUAS TAINHAS

Na comarca de J. tinha um preso que dava dó, uma sujeito que parecia um Cristo crucificado implorando perdão para os que não sabem o que fazem. Tinha 63 anos e era o condenado mais velho da comarca. Quando era interrogado, deixava a cabeça cair para o lado como se fosse uma velha  num velório, resignada com o sofrimento. Era ladrão, mas azarado demais. Sempre se queixava: É a desgraça, doutor, é a desgraça, é tudo muita desgraça e olhava para o chão. Repetia tanto isso que me lembrava minha avó, que dizia que se a gente falasse “desgraça” três vezes, a desgraçada em pessoa apareceria para na nossa frente. Esse ladrão possuía um fusquinha velho e vinha da cidade litorânea de P. para furtar em J. com regularidade, não sei porquê. Da última vez, limpou uma casa e atulhou o carro com tudo o que coube dentro dele e estava voltando faceiro quando acabou a gasolina. Passava um cidadão e ele pediu ajuda para colocar o carrinho num lugar mais seguro enquanto ia dar um jeito de buscar combustível. Essa pessoa foi de uma solicitude imediata e colocou mãos à obra, mas à medida em que empurrava o fusca, e vendo toda aquela carga caudalosa, começou a fazer perguntas ao preso e foram tantas as incoerências, que o cidadão não teve outro remédio que identificar-se como policial à paisana e dar-lhe voz de prisão. É a desgraça, doutor, é essa desgraceira, era o que repetia. Vou vender o fusca, minha  mulher está com câncer, é uma desgraceira só. Foi réu confesso e nem tinha como negar, o negócio era até meio jocoso. Cumpriu a pena e saiu no regime aberto. Numa tarde, apareceu no meu gabinete a auxiliar de serviços gerais, para me dizer que um senhor me havia deixado duas tainhas, mas não quis dar o nome e que disse que bastava dizer apenas  que era um presente do “mais antigo”. Pensei comigo o que é que o mais antigo andava fazendo pela cidade e se havia vendido o seu fusquinha mesmo. É a desgraceira da vida.