DIONATA É NOME PRÓPRIO? MASCULINO OU FEMININO?

Julguei hoje um processo em que o nome do réu era Dionata. Desafio o leitor a me convencer de que se trata de um nome masculino ou feminino.
Em primeiro lugar, Dionata é um nome que não existe na língua portuguesa e nem segue a prosódia do idioma, o que impossibilita descobrir-lhe o gênero. Penso, pessoalmente, que ficaria bem sendo feminino, como o nome de uma velha senhora, um daqueles nomes que, de tão tradicionais e simples, estão desaparecendo num oceano de Maicons e Djenniffers.
Mas, Dionata era um nome masculino, com certeza uma corruptela de Jonathan, que também já vi escrito Jonata. No presente caso, para fazer algum sentido, Dionata ao menos deveria ter o acento circunflexo no “ô”, aí seguiria uma regra de prosódia e permitiria que, pela pronúncia, se identificasse, por aproximação, o Jonathan original. Quando fui juiz na comarca de Ituporanga, de tanto ver esse tipo de coisa, baixei uma portaria, determinando que, quando se tratasse de colocar nome estrangeiro nos filhos, o tabelião deveria se certificar de que a grafia era a correta; do contrário, deveria suscitar dúvida. Desnecessário dizer que isso nunca ocorreu, e a essa altura, a dita portaria já deve ter sido devidamente devorada pelas traças. Pululam os nomes que não são nomes, são apenas pronúncias e que paralisam quem tem que escrevê-los, como é o caso da grafia do nome do réu.
É difícil compreender como os oficiais do registro público, portadores de diplomas de curso superior, e admitidos em duros concursos de ingresso, não dêem a mínima para essas barbaridades e tasquem o registro de nascimento com os nomes mais estapafúrdios possíveis.
É bem provável, até, que os pais registrantes apenas expressem a pronúncia e cada serventuário rabisque o nome de acordo com a diarréia mental do momento e nem se dêem conta da barbaridade que estão cometendo.
No caso do processo que julguei, o mais inacreditável é que ao autor declarou que foi atendido, no ato de sua compra, por dois Dionatas diferentes. Dois, no mesmo dia, hora e local.
Os linguistas mais respeitados dizem que a língua é dinâmica, e vive em constante evolução. Concordo plenamente, mas as regras de prosódia, pelo menos isso, tem que ser respeitada. Sem elas, Dionata é Dionáta, e, portanto, nome feminino, salvo melhor intuição.
Não estou defendendo aqui a língua culta, cujas regras domino muito pouco, mas se um nome não é tradicional em uma povo, e se sua grafia não permite aferir se é uma palavra oxítona, paroxítona ou proparoxítona, não é possível aplicar nenhuma regra de pronúncia e ela vai se definir, a meu ver, pela “pronúncia natural”, como em “sonata”.
Há um estudo do Professor Francisco Dequi, em cuja opinião, a tonicidade natural das palavras sem acento gráfico pode se resumir a uma única regra (transcrevo aqui a parte que interessa ao caso):

““A “acentuação objetiva” considera apenas a vogal tônica e não, a sílaba tônica. Tal sistema leva em conta também as vogais realmente pronunciadas e numera-as da direita para a esquerda, como abaixo:

3    2    1      3     2   1       2         1         4  3    2 1        2 1
m e n i n o – a q u i l o – s a n g u e – c o r a ç õ e s – e u.
Recordamos que em todas as palavras estruturadas com mais de uma vogal há uma pronunciada com mais força, a tônica. Observe-se ainda que a semivogal é, de fato, vogal.
Primeira parte – Tonicidade regular ou natural. Roteiros da tonicidade das palavras sem acento gráfico

A tonicidade regular das palavras sem acento gráfico flui da direita para a esquerda e 100% de sua localização segue os seguintes roteiros:

Se a terminação for das fracas ou átonas (a, e, o, am, em, ens), a tonicidade estará na vogal 2. Exemplos: datilografo, datilografas, datilografam, datilografe, datilografem, item, itens, publico, publicas, coco, cocos, celebre, domino, irmão, corações, porem, amaras, camelo.
Se a terminação for do rol das demais (as não incluídas nos casos acima), ela será forte e a tonicidade fixar-se-á na vogal 1. Exemplos: abacaxi, urubu, urubus, barril, lençol, jasmim, jasmins, motor, audaz, feliz, revolver, algum, alguns, animal, semitom, semitons, sutil, sutis, repetir, anu, maçã, irmãos, veloz, talvez.
Apesar dos dois roteiros anteriores, “i” e “u” quando antecedidos de vogal “encostada” (em ditongos ou hiatos) e não tendo apoio seu no lado direito (nasalização ou consoante sua) cedem a tonicidade para a vogal anterior – 2 ou 3 – encostada. Exemplos: flauta, leite, eu, ai, douto, doidos, ainda, sairdes, constituinte, transeunte, ruim, ruir, ruis, Raul, maus, saindo, Romeu, possui, possuis, maio, caiam.”” (http://www.paulohernandes.pro.br/dicas/001/dica146.html).

No caso de Dionata, palavra terminada, vê-se que ela termina em vogal fraca, ou átona, o acento tônico natural desloca-se para a segunda vogal (de trás para diante), ou seja, Dionáta, que é muito mais compatível com um nome feminino.
Apesar de a regra ser complicada, como são as regras do Português, estamos tratando aqui de simples tonicidade natural.