Congelando as Lágrimas

A porta da sala de audiências se abriu e um curioso fez menção de entrar justamente no momento em que a mulher caía no choro pela segunda vez. Como quem comete uma indiscrição, o homem deu um passo atrás com um pedido de desculpas no olhar e encostou a porta suavemente.

A mulher era a única pessoa na comprida mesa de conciliações e além dela, havia o juiz e seu escrevente na sala. Ela estava toda encolhida, os ombros caídos, numa atitude martirizada e soluçava convulsivamente como se houvesse escutado a sentença de morte de um filho. Sua reação era desproporcional com a natureza da causa, um congelador que havia comprado numa cadeia de lojas local e que apresentava um amassão. Fazia já 09 meses  da compra e a mulher nunca ligara o aparelho com medo de que ele queimasse. E assim,  por todo esse tempo a casa da mulher estava servindo de depósito daquele eletrodoméstico enorme e inútil, que só lhe causava desgosto a cada vez que passava por ele.

– Nove meses, já faz nove meses que ele está lá, nunca liguei, com medo que ele queimasse  – dizia ele entre soluços compridos.

– Mas, senhora – respondeu o juiz – a senhora deveria ter ligado, era pra usufruir. Se ficar provado o amassão, a loja vai ter que trocar de qualquer jeito.

– Eu fiquei com medo.

– Mas ninguém na sua casa lhe deu essa idéia?- perguntou o juiz.

– Meu marido queria ligar, eu não deixei. O gerente disse que se eu ligasse, eu perdia a razão.

– A senhora deveria ter ouvido o seu marido – replicava o juiz.

– Eu acabei de enterrar um parente – lamentava ela.

O choro tinha iniciado quando a mulher foi avisada de que a loja não fora intimada por divergência de endereços. Aí, ela caiu a soluçar e dizia coisas para aumentar o dó de si e alimentar  o seu sofrimento.

– Eu queria resolver tudo  hoje – falava num lamento – já faz nove meses que ele ta lá em casa. Nove meses – repetia.

– Mas olhe só esse endereço que a senhora forneceu – mostrou-lhe o juiz – não faz nenhum sentido. O correto estava aqui, na nota fiscal.

– Eu queria resolver tudo hoje – soluçava ela.

Um pouco depois, quando foi orientada a tirar umas fotos para ilustrar o caso,  ela respondeu:

– Minha filha já tirou – E puxou  da bolsa uma fotografia enorme do aparelho, que não mostrava nenhum amassão.

– Aqui não aparece nada.

–  Pois é, dizia a mulher, subitamente serena – não aparece.

O juiz ficou pensando por que razão ela ela andava com aquela foto que mal cabia na bolsa e que não servia para nada. Pensou em explicar para ela como a foto deveria ser feita, mas acabou dizendo outra coisa:

– Quanto tempo mesmo já vai essa história, senhora?

– Nove meses – disse ela, com o rosto lavado de lágrimas.

– Bem, a senhora veio aqui na hora certa – disse o juiz – agora, vá pra casa e ligue o seu freezer e faça um empadão, divida em dois  e congele a metade. Depois que estiver bem congelado, dê para a sua vizinha. E assine aqui o papel, fique com uma cópia, é a data da nova audiência.

A mulher sai da sala e no corredor invocando o nome de Deus toda desfeita, fazendo com que as pessoas  que ali estavam esperando a sua vez pensassem que havia acontecido uma desgraça lá dentro.

Quando chegou em casa, foi direto para canto onde estava o freezer. Aproximou-se acanhadamente do congelador e colocou o fio na tomada. Ficou suspensa ao ver que o aparelho não queimou, ronronava suavemente e começava  a gelar. A mulher  saiu para a cozinha, pegou os restos da galinha na geladeira e fez um empadão. Dividiu em dois, embrulhou a metade num saco plástico e colocou o freezer e mais tarde, ofereceu aquele naco, duro como pedra, a sua vizinha. E nunca mais se incomodou com o amassado e nem compareceu na audiência seguinte.