O SENTIDO PERDIDO DE RECORDAÇÃO

O sentido perdido da recordação.

 

Há alguns meses, recebi uma encomenda de uma edição dos Lusíadas, do século XIX, um livrinho pequeno, todo em couro e com uma dedicatória que terminava assim: “ex cordis”, ou seja, de coração. O dono do livro que foi parar no sebo sabe-se lá porque caminhos tortuosos ao longo dos anos, recebeu-o de um amigo como prova de real afeição. O vocábulo “recordar” deriva do latim: é a junção do prefixo “re”, que significa “repetir” e “cordis”, que significa “coração”. Assim, “recordar” (“re-cordis”), tem o sentido de fazer passar novamente pelo coração. Isso é pleno de significado, já que o coração sempre foi tido como o órgão das emoções, de acordo com a tradição literária e poética, em contraste com o cérebro, órgão do pensamento e da racionalidade. Uma bela referência literária sobre o assunto encontramos no Livro do Eclesiastes, em que seu autor afirma várias vezes que “eu disse no meu coração” (3:17-22), expressando que está falando com todo o sentimento. Os dicionários, via de regra, dizem que recordar é sinônimo de lembrar, trazer à memória, omitindo toda a profundidade do sentido original da palavra, mas etimologicamente é incorreto, e toda a poesia da palavra acaba se perdendo, porque  “lembrar” é “trazer da memória”, tem origem na palavra latina “memoria”, com suas várias derivações. A memória, esse enorme problema científico (o que é, como se compõe, como surge, onde se localiza, etc.), é frequentemente equiparada a arquivos de registros passados.

Pode o meu escasso leitor perguntar que diabos isso tem a ver com o direito, mas tem sim, afinal os juízes e advogados, nas audiências, vivem tentando reconstruir o passado com base na prova testemunhal, e não seria  apropriado dizer que a testemunha esteja tentando recordar-se dos fatos; ela procura simplesmente “lembrar” deles; seu relato é meramente descritivo e não emocional; a lembrança dos fatos não passa pelo seu coração, somente pela razão.

Toda recordação, assim, envolve uma memória, mas nem toda memória constitui uma lembrança.