A MULHER DE COSTAS

Certa ocasião, neste juizado especial que presido, topei com uma ação de reparação de danos morais peculiar. O time do Santos tinha vindo a nossa cidade para uma partida do campeonato e seus jogadores se hospedaram no hotel mais luxuoso e badalado do centro. Na verdade, ocuparam o último andar, se não me engano, ou, ao menos, foi numa boate lá instalada, que resolveram realizar uma festa priveé, como são os eventos naquele espaço, apenas para o beautiful people, como diz um colunista local. Entre esses jogadores, encontrava-se Neymar, que ainda jogava no Brasil, mas já era a grande atração da equipe.

A festa deve ter sido como manda o figurino, porque foi notícia de capa do jornal daqui, que na falta de maior cuidado jornalístico, publica qualquer coisa que tenha apelo popular. Para falar a verdade, acho que foi na última capa, ou mesmo na coluna do dito colunista, que uma foto foi estampada; não importa. Importa é que era uma foto de bom tamanho, que noticiava o “evento” do pessoal do Santos e a frequência de “belas mulheres” no local.

Pois foi essa fotografia a responsável, a causa de pedir da ação de danos morais proposta por uma jovem, que sentiu-se ofendida com a publicação e com a insinuação de que ela se trataria de uma garota de programa.

Quando adentrei na sala de audiência e vi a fotografia, não entendi a razão da lide, pois a foto mostrava duas mulheres (jovens, decerto), uma loura de cabelos longos escorridos e a outra possuía cabelos pretos. Essa loura usava minissaia e botas de cano alto, era fácil de ver que tinha as pernas torneadas e um belo corpo, mas ela estava de costas (!), e a fotografia estava muito granulada – com uso de ISO alto por causa da falta de boa iluminação e também do efeito da ampliação. Era impossível identificar quem quer que fosse por aquela fotografia, era apenas uma mulher de costas. Mesmo que se tratasse de uma celebridade, poderia ser uma outra pessoa qualquer. A verdade é que se tratava de uma bela figura de mulher e a fotografia, portanto, não mentia. Desnecessário dizer que a autora da ação era uma mulher loura e quando eu a vi na audiência, jamais poderia dizer que se tratava da jovem fotografada no jornal. E como poderia?

Mas não era só isso, dizer que a festa foi frequentada por belas mulheres de forma alguma poderia ser relacionado com prostituição, exceto se a autora, ela própria, estivesse admitindo que estava vestida de tal forma, e a meu ver, não estava; era uma mulher que estava destacando seu corpo bonito e nada mais e fazendo isso publicamente.

Essa história é curiosa porque a dar acolhida à tese da autora, em primeiro lugar o juiz teria que admitir que ela conhecida por sua derrière e não por seu rosto, e em seguida, que estivesse vestida como uma garota de programa, o que, embora não sendo verdade, era algo em que ela implicitamente parecia insistir, como se a sua beleza, naquele contexto, fosse uma maldição. O que parecia fora de dúvida é que a jovem, realmente, participou da festa do Santos, de forma que todo o problema parecia residir em tê-la frequentado, como se tivesse sido melhor não ter aparecido, ou não ter sido vista. Se era este o caso, não ser reconhecida equivalia à invisibilidade.

Fiquei depois imaginando qual teria sido a reação da autora, que se auto identificou na foto, se o texto se referisse a “mulheres desajeitadas” ou “feias”.

Essa história me lembrou outra, que li há anos num artigo de Paulo Francis, publicado na Folha de São Paulo, nos tempos em que José Sarney era presidente do Brasil e havia ido a Nova Iorque participar de uma assembleia da ONU. Segundo o jornalista, as mulheres da comitiva presidencial ficavam pela frente do hotel em que Sarney estava hospedado, usando roupas de couro – algo que devia ser moda na ocasião por aqui – mas não em Nova Iorque, de onde acabaram sendo enxotadas pelo porteiro que as confundia com as prostitutas que rondavam o local e que usavam aquele tipo de traje. O incidente, ao que parece, não abalou as relações entre os dois países.