DICIONÁRIO DAS EXPRESSÕES CRETINAS E EQUÍVOCAS – compilação

 

Esta é uma compilação de um minúsculo e incompleto Dicionário de expressões cujo sentido oculto, ou nem tanto, basta prestar um pouco de atenção, fui arrebanhando nos últimos tempos. Muitas já me escaparam. Esta é uma versão consolidada do que aqui já publiquei.

DICIONÁRIO DAS EXPRESSÕES CRETINAS E EQUÍVOCAS:

A

Aclamação – atitude de um grupo que não tem o menor interesse em exercer certas funções e abdica em favor de um terceiro interessado, que recebe o encargo como se de seu natural merecimento.

Abraços – fórmula desprezível de terminar uma correspondência destinada a quem não se tem a menor intimidade ou a menor vontade de abraçar.  Os mais audazes nessa prática costumam abreviá-la como abr. ou abs, o que não significa absolutamente nada ou muita coisa, inclusive a abreviação do verbo abreviar ou da palavra absolutamente, pois nessa seara tudo é possível.

Areópago – ou aerópago? Na dúvida, para não fazer ridículo, use Tribunal. Designação muito utilizada em acórdãos por magistrados que não tem a menor idéia do que signifique a palavra, embora saibam escrevê-la.

Ave –  upgrade de galinha. Afetação da classe média, que se envergonha de admitir que come galinha, comida de pobre, que também a apelida de penosa. Esse nome também é utilizado pela burguesia, para dar a impressão de que, ao menos uma vez na vida, vai comer esse alimento de baixa extração, embora o faça duas vezes por semana. Os menos sofisticados usam a expressão frango, ou mais carinhosamente, franguinho,  tratamento com o qual o animal deve se desvanecer.

Animal irracional – aquele que só mata para se alimentar, não por prazer ou vingança.

B

Bilhete – pernosticismo da classe média que viaja de avião para diferenciar da canalha que se vira de ônibus; evidentemente, o que se compra é a passagem, do que o bilhete é a mera materialização. Segundo essa lógica, os viajantes de avião passam a ser bilheteiros enquanto que quem usa ônibus goza do privilégio de ser passageiro.

Boutique de carnes – essa é uma das mais canalhas expressões já inventadas. Se eu fosse um boi, ia convidar o dono a manter esse nome se tivesse que colocar os pedaços da família dependurados em ganchos de açougue.

C

Caridade cristã – fórmula campeã da hipocrisia; já a vi empregada por um sujeito prepotente e canalha que denunciou outrem por puro vício de caráter e que, quando se viu virando vítima de seu veneno, por caridade  cristã pediu o arquivamento da denúncia. Atualmente assiste uma missa atrás da outra na esperança de garantir sua cadeira no céu, onde certamente, por justiça cristã lhe será negado assento.

Certeza absoluta – expressão utilizada com tanta maior ênfase quanto mais em dúvida consigo mesmo se encontra quem afirma.

Colaborador – designação carinhosa para empregado, que nunca deve se esquecer de que já foi desempregado. Eufemismo inventado por um patrão já embriagado, num discurso comemorativo do excelente balanço anual.

 

Comenda – brotoeja da vaidade, píncaro do merecimento, prima rica da medalha. Recomenda-se usualmente por encomenda.

 

Comendador – ao contrário do que indica a voz ativa, comendador é quem recebe a comenda e não quem a outorga. Equívoco vernáculo possivelmente cunhado por quem, na emoção do instante, havia acabado de receber a comenda. Título muito exibido em casas bancárias para conseguir empréstimos, que geralmente não serão honrados.

 

Carreira – designação de etapas do percurso de um juiz até sua aposentadoria. Na prática, carreira é sinônimo de corrida, permitidas as rasteiras e outros golpes baixos nos demais competidores.

 

Casa Militar – designação afetada de militares desocupados cuja única tarefa é bater continência aos do Poder Civil a que estão atrelados, com o que estes ficam especialmente gratificados. Fala-se em criar uma Casa Eclesiástica.

Cidadão honorário – grande m.

Causídico – sinônimo pomposo de advogado, ou seja, aquele que defende causos.

Carnes nobres – partes mais macias de um cadáver, de preferência bovino. Como são poucas, submetem-se à lei da oferta e procura e apenas os mais abastados podem consumi-las, o que contribui para a confusão entre nobreza e riqueza. Para a plebe, sobra o resto, incluída aí toda a fussura e o tutano. Para aliviar a impressão de dureza, foi inventado o amaciante de carne, que poupou o trabalho da cozinheira com o martelo.

Cloaca – ânus dos animais; para diferenciar dos humanos, que tem ânus, a mesma anatomia dos bichos chama-se cloaca, embora tudo seja c., como se vê. Entretanto, o esgoto humano denomina-se cloacal e não esgoto anal, o que evidencia que os animais nunca levam a melhor com os donos do idioma.

Colunista – indivíduo sem opinião sobre coisa alguma e que se realiza como ser humano espalhando fofocas, irrelevâncias, difamações, injúrias e calúnias, tudo isso várias vezes numa só página de jornal, com o poder de sintetizar cada um desses ataques em tristes aglomerados de no máximo 20 palavras, que são chamadas de notinhas; desempregado sem talento que faz enorme sucesso junto ao sofisticado público leitor. É preciso reconhecer, entretanto, que num verdadeiro jornal, o colunista volta a ser um mero desempregado.

Completo – adjetivo que designa o modelo de carro de pobre.

Completíssimo – maneira debilóide de designar o automóvel mais luxuoso de uma linha. Os marqueteiros nunca acharam que tal imbecilidade fosse cair no agrado do público, mas foi um caso clássico de subestimação.

Continência – sedução militar.

 

Coroa – aparato de ouro para se colocar na cabeça do rei e diferenciá-lo da plebe, de onde se segue que ninguém é rei sem coroa; apelido  feminino  com forte carga de lubricidade e baixeza libidinosa, cujo sentido desvela-se na entonação e de onde se segue que nenhuma mulher precisa de coroa para ser rainha.

 

Charmoso – indivíduo que já perdeu o sex-appeal, eufemismo para sujeito cuja aparência não promete muita coisa; sinônimo de boa companhia num jantar e é tudo.

 

Contumaz – adjetivo que designa o indivíduo caprichoso, aferrado na teimosia, com sentido nitidamente pejorativo; ou designava, porque atualmente nos meios forenses, os advogados lhe estão dando um novo sentido, qual seja, o de habitualidade, de forma que o sujeito que se diz cliente contumaz de uma companhia telefônica, ou aérea, por exemplo, usa desse recurso lingüístico para, em seguida, relatar que foi tratado com desconsideração. Assim é difícil, e contumaz eu leio, menos eu entendo.

 

D

Diplomata – geralmente associada a indivíduos de smoking e expressão séria e compenetrada. Na verdade, é o sujeito que domina a arte de dizer e praticar as piores  cretinices sem perder o status; eufemismo para cretino.

Das prendas domésticas – consolo da esposa que exerce gratuitamente a profissão de faxineira e cozinheira, quando vai se identificar no consultório médico.

Desjejum – café com leite e pão com manteiga;

Disponibilizar – verbo utilizado apenas no gerúndio. Quem vai estar disponibilizando, não disponibiliza nada. Fórmula polida que anuncia o descumprimento de promessa.

Drinque – Beco sem saída de puteiro; início de diálogo de puta, que deixa claro que você está iniciando uma contratação de serviços e não um romance.

Discurso – improviso debochado sobre qualquer coisa dirigido a um público ansioso pela oportunidade de bater palmas.

E

Estimar melhoras  – depende. O destinatário desses votos pode estar na sua frente na lista de promoção por antiguidade.

Entrar em óbito – expressão que dá a idéia eufemística de que o óbito é um estado de transição e dá a falsa esperança à viúva de que o morto pode sair do óbito.

Entender – antônimo de atender; sinônimo de sentir muito.

Evolução – jargão da medicina que demonstra a visão doentia que esses profissionais tem da saúde; evolui-se para pior até se atingir o grau máximo de evolução, que é a morte. Nesse contexto, pode-se dizer que o cidadão que melhora da doença está regredindo.

Extra virgem – adjetivo que não tem significação razoável, uma vez que, ou se é virgem ou não é; que eu saiba, ninguém reza para a Extra Virgem Maria, atributo que, sem dúvida, lhe deveria ser adjudicado. Esperteza de produtor de azeite de oliva adulterado que resolveu estabelecer um grau de acidez menor do que o do vizinho. Não se conhece ainda a designação do terceiro produtor, que produz azeite ainda menos ácido do que o dos outros dois.

F

Frutos do mar – patifaria de cardápio de restaurante às custas do sabor da carne das criaturas marinhas.

 

G

Gases – nome social do peido.

I

Increpado – qualidade do mulato desdentado acusado de ter furtado um botijão de gás. Quando se trata de acusação de desvio de dinheiro público, utiliza-se defendente.

Inocente – indivíduo cuja culpa ainda não pôde ser provada.

Investimento –  eufemismo; custo de um ingresso, na suposição de que o espetáculo vai representar um benefício para o pagante, o que é altamente duvidoso. Geralmente utilizada em seminários, congressos e simpósios jurídicos, em que os palestrantes quase nunca estão à altura do valor da entrada.

M

Maria Imaculada – sinônimo de Virgem Maria; exagero puritano que equipara a perda da virgindade a uma mácula; veneração da virgindade na mulher dos outros. Não se conhece a opinião de José.

Massa envelhecida – indiferença, ou talvez repulsa com que as companhias de seguro se referem aos grupos que durante décadas lhes encheram os bolsos e que agora representam um risco desnecessário de assumir; vade retro dos seguros em grupo. A massa envelhecida está um pouco aquém da massa podre, que em culinária é utilizada para fazer empadões.

Medida profilática – expressão que, dependendo do uso, tem o seu espaço cativo nesta obra, especialmente quando utilizada em Direito para designar ações ou recursos destinados a afastar ilegalidades. Lima Barreto, na sua obra Clara dos Anjos, coloca na boca de seus personagens o seguinte diálogo, quando o advogado Praxedes está explicando a um grupo o que é um habeas corpus preventivo: “…é uma medida profilática… Aí, não posso concordar” – aparteia o dentista prático Meneses – “cada ciência tem o seu próprio conhecimento.” A crítica não fez escola, pois o artificialismo da linguagem jurídica só fez engrossar de lá pra cá.

Melhor idade – etapa da vida do indivíduo em que ele passa a ser atormentado diariamente pela dor e pela decrepitude geral; expressão utilizada alagremente por alguns desses indivíduos senis e por empresas de turismo inescrupulosas para vender pacotes de viagens.

Missão – missa com um sermão interminável.

O

Off – galicismo dos preguiçosos e dos pretensiosos, que utilizando essa palavra querem dar ao seu comércio uma importância maior do que a que ele tem. Substitui a tradicional percentagem de desconto, mas a verdade é que qualquer sujeito que veja um cartaz com um número colado em uma vitrine, sabe perfeitamente que se trata de desconto, de forma que retiro a preguiça, mas mantenho a presunção.

Oratória – do latim orare, que significa orar; oratório designa um lugar íntimo onde se pode estar a sós com Deus, e como este gosta de bajulação, pode-se orar à vontade. Oratória parece derivar dessa prática de falar sem fim, e constitui-se em uma técnica de fazer discursos enfadonhos e mentirosos parecerem agradáveis aos ouvidos dos outros. O padre Antônio Vieira era considerado um mestre na oratória eclesiástica e quem já se deu ao trabalho de ler algum de seus Sermões vai perceber facilmente que o jesuíta era consumido pelo pecado mortal da vaidade.

P

Proativo –sujeito  que está mais proativo do que propassivo.

Paciente – o sujeito que, dado o seu estado de saúde, se ficar impaciente, como seria de se esperar de quem tivesse um mínimo de dignidade, só vai piorar a sua condição geral.

Palmas – deboche do público ao orador.

Peça –  Parte componente de um conjunto mecânico. Nova designação de petição, que faz parte de um conjunto dialético. Daí decorre a proximidade semântica entre a famosa expressão “pregar uma peça” e  a pretensiosa “elaborar uma peça”.

 

Propulsor –  Artifício iconológico da novidade da indústria automobilística. Assim como existe o propulsor de íons, agora existe o propulsor do carro mil.

 

Promotor de justiça – designação cabocla de promotor público, mantida por puro interesse corporativo. Título que gera perplexidade, pois é evidente que é o juiz quem promove justiça, enquanto os promotores se limitam a dizer: minha função é acusar, ele que julgue.

Positivo – quer dizer, negativo.

S

Saudação – sarcasmo de orador que atinge seu paroxismo no Tribunal do Júri, onde, às vezes, tanto o homenageado quanto o orador caem na risada.

Sentir muito – formula polida para expressar àquele a quem se dirige que o assunto não lhe diz respeito e nem lhe interessa e que, geralmente é respondida por aquele que sofre com fórmula do mesmo calibre: “obrigado por suas palavras gentis”.

Sessão solene – ato público relevante  em que há um arranjo floral sobre a mesa do presidente.

Sessão ordinária – o nome já diz tudo.

Solenidade – cerimônia enfadonha totalmente dispensável.

T

Trazer à tona – só vem à tona o que está podre e inchado. Quase sempre quando a verdade vem à tona é muito desagradável e seria melhor que permanecesse no fundo; o tipo de atitude inconveniente numa reunião social. Um cadáver geralmente leva três dias para vir à tona.

Transparência – exposição pública e detalhada da sacanagem com o dinheiro público, você é que não entende.

Tira gosto – de quê?

V

Vaia – homenagem do público que estava prestando atenção ao discurso do orador.