BARNABÉ: DE SANTO A FUNCIONÁRIO PÚBLICO

Barnabé: de santo a funcionário público.

Em recente notícia publicada na página de um tribunal de justiça, li a seguinte manchete:

“Discussão banal entre barnabé e adolescente não implica dano moral indenizável.”

O caso era simples, envolvia um funcionário público um adolescente que fora repreendido por ele e lhe movera uma ação de reparação de dano moral, porque o servidor apenas cumpria a sua função, evitando o depredamento de uma quadra de esportes da escola onde trabalhava.

Embora o fato tenha sido realmente corriqueiro, o que me chamou a atenção nessa matéria não foi propriamente o seu conteúdo, mas o uso da expressão “barnabé” na manchete, para designar o funcionário público em questão.

A origem dessa palavra tem forte cunho religioso, mas acabou se transformando, no Brasil, numa forma eventualmente pejorativa, mas por certo irreverente, de designar os funcionários públicos e em nossa cultura jurídica de hiperssensibilidades, até mesmo o “barnabé” em questão poderia sentir ofendido pelo tratamento que recebeu. Mas será mesmo?

Como São Barnabé virou funcionário público é o que me proponho a esclarecer.

Segundo o site “Dicionário de Nomes Próprios” (www.dicionariodenomesproprios.com.br), “Barnabé: Significa “filho do profeta”, “filho da consolação” ou “filho da exortação”. Tem origem em bar nabid, que significa “filho do profeta”, “filho da consolação” ou “filho da exortação”. Barnabé teria sido o apelido dado pelos apóstolos a José de Chipre tendo em conta a sua habilidosa prática de falar com as pessoas e consolá-las por meio da palavra de Deus. Rico, José Barnabé vendeu seus bens e ofereceu aos apóstolos de Jesus. Consta como um dos 72 discípulos e é considerado santo, sendo sua festa comemorada no dia 11 de junho. Sua história está referenciada no Novo Testamento da Escritura Sagrada, no Livro de Atos dos Apóstolos: “Então José, cognominado pelos apóstolos Barnabé (que, traduzido, é Filho da consolação), levita, natural de Chipre, possuindo uma herdade, vendeu-a, e trouxe o preço, e o depositou aos pés dos apóstolos.” (Atos 4:36,37). Assim, o nome Barnabé carrega consigo o sentido cristão, bem como suas virtudes, expressamente a capacidade de confortar as pessoas que sofrem. É um nome frequente na França e que deriva do nome Barnabas, este utilizado tanto nas línguas inglesa ou alemã. “Bé” é o termo afetivo mais utilizado nas pessoas registadas com o nome Barnabé.”

Seria de esperar, portanto, que o nome Barnabé fosse relativamente comum, como uma forma de homenagear o santo, especialmente se o menino nasceu em 11 de junho.

Curiosamente, segundo Antonio Gerardo da Cunha, barnabé designa o funcionário de categoria modesta (Dicionário Etimológico da Lingua Portuguesa, Nova Fronteira, p. 100.). Esta é a mesma definição que lhe dá o Aurélio. O Moderno Dicionário da Lingua Portuguesa, Michaelis, Melhoramentos, 1988, p. 301, define o barnabé como “funcionário público estadual ou municipal. Simboliza o funcionário mediano, com suas aspirações, seus sentimentos de classe, etc.”.

Provavelmente e um brasileiro se referir a um funcionário público francês como “barnabé”, ele não vai entender, ou, então, vai se admirar do poder místico do seu interlocutor, que adivinhou o seu nome.

No Brasil, pois, o responsável por essa transubstanciação de um nome bíblico sacro a um apelido de cunho talvez pejorativo, mas irreverente, criativo e jocoso, foi o compositor Haroldo Barbosa (1915/1979), que criou uma marchina carnavalesca ou samba em 1947, chamada Barnabé, que era o nome imaginário do funcionário público protagonista da letra, que segue:

Barnabé o funcionário
Quadro extra numerário
Ganha só o necessário
Pro cigarro e pro café
Quando acaba seu dinheiro
Sempre apela pro bicheiro
Pega o grupo do carneiro
Já desfaz do jacaré
O dinheiro adiantado
Todo mês é descontado
Vive sempre pendurado
Não sai desse terere
Todo mundo fala fala
Do salário do operário
Ninguém lembra o solitário
Funcionário Barnabé
Ai Ai Barnabé
Ai Ai funcionário
Ai Ai Barnabé
Todo mundo anda de bonde
Só você anda a pé…

Portanto, aí está claramente delineado o sentido popular que o brasileiro passou a dar aos funcionários públicos modestos. Esse sentido de rebaixamento foi o mesmo utilizado pelo Ministro Joaquim Barbosa, quando o consideraram “herói”, por causa de sua participação no processo do Mensalão, ao que ele retrucou  “O que é isso, gente?  Sou apenas o barnabé do processo.” Quer dizer, um “bagrinho”. Mas como um bagre se transformou em barnabé já é outro capítulo.

Este artigo é uma homenagem a meu pai, que com muito bom humor, se considerava um legítimo barnabé.