O CASO DAS BANDEJAS DE OVOS

Há muito tempo fui juiz titular em uma cidade histórica em nosso Estado e apareceu um processo que envolvia briga de vizinhos por causa de perturbação de sossego noturno. A requerida possuía um bar na beira do mar, que parecia um enorme barracão de madeira e realizava ali, nos finais de semana, à noite, eventos dançantes com música mecânica que se estendiam madrugada adentro. Isso acontecia nos verões, justamente quando os vizinhos também iam para suas casas e apartamentos próximos, descansar na praia no mesmo período e o volume do som era tão alto que os impedia de dormir.

A dona do bar era uma mulher enorme, que usava um vestido preto típico do sinal de luto dos açorianos, e na audiência designada, não parecia nem um pouco abalada com aquelas reclamações, mas a se considerar o bom punhado de autores da ação, era de se suspeitar que o incômodo causado pela música fosse realmente considerável. A conversa não evoluía e a dona do bar dizia que fechava as janelas, que só realizava bailes uma vez ou outra e que a música cessava logo depois da meia-noite e usava outros argumentos desse tipo. Havia um impasse e como em direito de vizinhança a solução negociada é sempre a melhor alternativa, estendi a audiência buscando a conciliação. De repente, surgiu-me uma ideia, lembrei que um amigo havia me dito há tempos, não sei bem em que contexto, que aquelas bandejas grandes de ovos que se encontram nas feiras e supermercados eram um excelente isolante acústico para se usar em stands de tiro. Como era uma solução muito barata, resolvi propor essa ideia e acabei convencendo a dona do bar a cobrir as paredes internas do seu estabelecimento com essas bandejas e o acordo acabou saindo nessas condições.

No final do verão, fui até a beira da praia comprar peixe, na verdade, na entrada de um canal, ladeado por uma enorme faixa de areia. Enquanto caminhava despreocupado entre as poucas mesinhas dos pescadores que ofereciam seus pescados, reparei num grande barracão, com paredes de madeira e bambu e teto de amianto que estava construído sobre a areia da praia. Na frente dele, tomando sol numa cadeira, estava a enorme senhora de preto que eu conhecera na audiência. Ela também me reconheceu e fez um gesto para que eu me aproximasse. Depois de um breve cumprimento, ela me levou para dentro do bar para conhecer o ambiente. O lugar era tão feito por dentro quanto por fora e era decorado com cartazes de mulheres de biquíni fazendo propaganda de cerveja. Fora isso, era um ambiente escuro e pesado, opressivo, pois todas as paredes, inclusive as janelas, estavam cobertas por centenas de bandejas de ovos, tal como havia ficado combinado. O lugar parecia um buraco escavado na rocha. E, sinceramente, quem fosse ali para dançar e se divertir acabaria achando que alguma coisa estava errada, no mínimo, que se encontrava na antessala de um galinheiro. Logo vi que a ideia não havia sido grande coisa e prguntei à mulher, com um fio de esperança, se o arranjo havia contribuído para diminuir o barulho.

Ela olhou para mim, sem esconder seu ressentimento e respondeu: “m. nenhuma”.

Como diz o ditado, de boas intenções o inferno está cheio.

Fim de história.