BOA AÇÃO NO SUBWAY

Boa ação no subway

     Um estagiário deste juízo, imbuído de muita fome e espírito cristão, resolveu consagrar-se a sua exorbitância mensal, depois de receber a sua minguada gratificação paga pelo Estado. Depois de colocar 15 reais de gasolina no carro mil usado que ganhou do pai por ter passado na faculdade, foi empanturrar-se numa casa de sanduíches de tipo bem americano, daqueles que envolvem toda uma questão de estratégia antes de enfiar os dentes, tamanhas são as proporções que ele vai adquirindo à medida que o pão vai passando pelas variadas opções de recheio.

     E lá estava ele, sentado sozinho numa mesa de um canto, num dia de pouco movimento – ele sempre ia nos dias pouco movimentados porque é um rapaz muito tímido – brigando com os recheios que pulavam para fora do pão, dispostos a não serem devorados, quando entra uma mendiga. Era uma mulher de aspecto lastimável, suja, descalça e ombros caídos, que começou a percorrer as mesas pedindo que algum freguês de bom coração lhe pagasse um sanduíche. Foi sistematicamente repelida pelos poucos frequentadores e só restou, lá no fundo, o nosso estagiário em luta corporal com seu lanche, enfiando os recheios renitentes com os dedos enquanto com a outra mão empurrava o pão boca dentro e tinha que se lembrar de retirar o dedo rapidamente antes que a boca se fechasse na mordida animal.

     Mas apesar de toda aquela aparente voracidade e gula, ele tinha o bom coração de que a pedinte tanto necessitava e quando ela chegou na sua mesa, ele fez um sinal para a balconista, dizendo que poderia preparar um lanche para a mulher. Sem nem mesmo agradecer, a mulher dirigiu-se no seu passo arrastado até o balcão e a atendeu perguntou: “metade, ou inteiro?”. A resposta foi óbvia e o pão inteiro começou a rebolar pelo boulevard de opções: “vai filé mignon?” Vai. “Vai frango?” Vai. “Vai bacon”. Sim. “E atum?”. Também. “E presunto e queijo, cheddar, cebolinha, picles?” e foi oferecendo toda aquela abominação de cardápio, que a pedinte já estava achando que tinha a obrigação de aceitar, para não parecer mal agradecida.

     A essa altura, o nosso estágiário, que surdo não era, já tinha perdido a fome, e não se conformava com a falta de consideração da balconista com o dinheirinho suado dele. Comeu o resto de seu sanduíche sem nenhum prazer e só o consolou o pensamento de que Jesus estivesse prestando atenção. Então, caminhou até o caixa para receber a conta daquela extravagância: quase quarenta reais!

     Naquele dia, o dedicado estagiário viu o seu acalentado novo exemplar do NCPC virar pão e essa imagem do milagre da transubstanciação o pacificou um pouco, mas não conseguiu eliminar de todo a sensação de rancor contra o governo federal por não ter criado, ainda, uma Bolsa-Bom Samaritano.