PERGUNTE-ME

 

 

          Aconteceu há vários anos que um desembargador com uma notória dificuldade de comunicar suas ideias foi proferir uma palestra numa faculdade. É necessário esclarecer que o convite foi infeliz e certamente provocado pelo desconhecimento dos organizadores do evento da completa falta de habilidade do palestrante convidado. Além de confuso na articulação do raciocínio, o magistrado sofria de uma espécie de gagueira que não se sabia exatamente se era realmente uma patologia ou apenas uma vacilação intermitente na condução de suas ideias, como se estivesse em constante discussão consigo mesmo acerca da coisa certa a dizer.

             Esse magistrado, procurando valorizar a sua apresentação ao auditório, teve a ideia de redigir umas perguntas que separou em forma de bilhetes e procurou um colega juiz de direito, homem gentil e muito sociável, solicitando sua ajuda. Que ele convidasse outros juízes para infiltrarem-se na plateia como paisanos, cada um com uma pergunta adredemente preparada. Era para fomentar o debate, estimular a discussão, explicava o palestrante, porque as pessoas não fazem perguntas. Não ficou claro se o desembargador falava por experiência de palestras passadas ou por intuição. Seja como for, o juiz contactado prontamente assentiu e logo encontrou mais uns dois voluntários desejosos de fazer uma gentileza ao desembargador. O primeiro distribui um bilhete para cada um e lá foram os 03, confiantes, tomar seus assentos para cumprirem o combinado, com suas perguntas inteligentes nos bolsos e já decoradas na ponta da língua.

        A palestra não fugiu do esperado, monótona, com ideias truncadas, raciocínios incompletos, as vacilações enervantes e com uma conclusão indefinida e abrupta. No final, em meio silêncio geral da plateia, o primeiro juiz, levantou o dedo e formulou sonoramente a indagação ao palestrante, muito satisfeito por estar ajudando-o com um questionamento instigante, mas teve uma grande e nada agradável surpresa com a resposta, que veio em tom de censura do desembargador: “ah-ah, mas vo-você não pres-prestou atenção na mi-minha paaalestra, a-assim não dá.”

          Embora não seja necessário, fica o registro de que os outros juízes entenderam prudente não formular as suas próprias perguntas.

                 E tampouco houve qualquer outro questionamento por parte do auditório.