A MISSA DAS DEZ

A MISSA DAS DEZ

O doutor Jabuti, juiz de nomeada e muito devoto, naquele domingo de sol de primavera, decidiu sentar na praça do bairro que ficava na frente da igreja e curtir o sol da manhã, e lá estava, mexendo os braços num aparelho que desgrudava as articulações do ombro, quando se aproximou um casal de moradores de rua, ambos andrajosos e cheios de sacolas e trouxas, carregando a casa nas costas, como caramujos. A mulher ia na frente e o homem, que devia ter uns quarenta anos, pele queimada e suja, imunda, como é característico neles. Deviam dormir ali por perto, sem dúvida, pois antes que o homem o declarasse, estava claro que mal havia acordado. Ao passar pelo magistrado, o homem diminuiu o passo e perguntou as horas, com os olhos inchados de tanto dormir.

– Nove e vinte – respondeu, com um tom marcial de quem preferia não ter que dar aquela informação.

– Nove e vinte? – repetiu o homem, como se não acreditasse,  como se fosse necessário que ouvisse de nossa própria voz aquelas palavras a fim de que adquirissem algum sentido  – meu Deus, perdi a missa, será que tem a das dez hoje?

O doutor Jabuti não estava com vontade de alimentar conversa, ainda mais que, depois de um breve exame do rosto do homem, percebera que ele tinha as faces inchadas e os olhos tão vermelhos, que certamente se tratava de um alcoólatra que ainda não destilara toda a cachaça que bebera à noite, ou quem sabe, fora o seu café da manhã:

– Ah, isso eu não sei – respondeu com a mesma rispidez, mas era evidente que, sendo domingo, deveria haver a missa das dez, afinal, era uma tradição a missa nesse horário, ele mesmo costumava freqüentá-la.

O homem, entretanto, continuou caminhando vagarosamente e continuou conversando naturalmente, com uma expressão tão sincera e cordial,  que conseguiu desfazer no magistrado aquela impressão inicial de molestamento de pedinte:

– Acordei tarde hoje, dormi demais, também, eu tomo remédio controlado – disse, justificando-se e sorrindo, sem vergonha de expor sua intimidade, a qual, na verdade, não possuía, como morador de rua que era.

O doutor Jabuti não demonstrou, mas ficou internamente comovido com aquele sorriso indulgente do mendigo, e constrangeu-se de ter pensado tão mal dele. Fazia uso de remédios controlados, não era de espantar que acordasse tarde e transfigurado e mesmo assim, um farrapo humano daquele, que nada tinha na vida exceto um litro de cachaça à noite, sim, porque, com certeza, a cachaça não faltava de qualquer jeito, e aquela mulher de quem só se poderia adivinhar o sexo depois de um longo e demorado banho (se é que era mulher dele), preocupava-se com a missa, com o pedir e agradecer a Deus pela Graça da vida, era realmente uma forte demonstração de fé e todo homem defé devia ser respeitado, era o que ele sempre costumava dizer.

         Possivelmente ele era a primeira pessoa com quem o homem falava naquela manhã e as primeiras palavras que lhe saíam da boca demonstravam a preocupação com o horário da missa perdida e a esperança de haver uma outra, um pouco mais tarde. Sim, deveria ter dito, sim, há a missa das dez, é claro, você a assistirá meu amigo, Jesus lá estará, esperando por você! Como será que o padre o via, assim maltrapilho, entrar na sua igreja tão bem cuidada, por acaso um irmão, talvez a imagem do próprio Cristo, ou se deixaria levar pelo preconceito de que fora vítima ele próprio? Pelo que sabia, padres não gostavam de pobres, exceto para justificassem os seus sermões piedosos e recriminatórios contra os fiéis e para demovê-los a praticar a caridade, porque a deles já por acaso não bastava a vida dedicada ao sacerdócio?

Enquanto o homem atravessava a praça atrás da mulher, em direção à igreja, de onde saía alto o som das cantorias e aleluias, o juiz pensou em que filosofia de vida animaria um sujeito daqueles, esse abandono voluntário do mundo que ao mesmo tempo se transforma num ato de extrema liberdade e desapossamento. Levantar no meio da noite e mijar num pé de árvore daquele parque, podia escolher qualquer uma, esta ou aquela, tanto fazia, ele era o único verdadeiro dono do lugar. Urinar em lugar público não seria, por acaso, uma suprema forma de liberdade? Haveria um sentido profundamente filosófico em viver assim ou era um desvio patológico de conduta que deveria levara cadeia, mais cedo ou mais tarde (se é que de lá já não havia saído)? Afastou essa malidicência, pra quê pensar assim, afinal? Dormir ao relento – retomou o juiz – isso era de invejar – não havia dúvida, dormir profundamente, sem as preocupações estúpidas da vida burguesa, sem as consultas ao saldo da conta corrente e da poupança, sem poder passar em frente da concessionária e olhar na vitrine o novo modelo do automóvel que ele possuía, muito mais sofisticado e moderno e que ele tanto desejava comprar e o fato de não poder fazê-lo no momento o incomodando como uma coceira que ele não podia coçar.

O doutor Jabuti envergonhou-se de sua atitude preconceituosa, não seguira é ética cristã,  comoveu-se e chamou o homem, oferecendo-lhe uma cédula de 10 reais.

– Pegue aqui, tome um bom café e  lave o rosto antes de conversar com Ele – e apontou os olhos para cima – Como dizia o sábio na Bíblia, tudo nessa vida são vaidades e Ele sabe isso melhor do que nós. Vá, e tome aqui, mais 10 para a sua mulher.

O homem aceitou o dinheiro supreso e o enfiou no bolso e disse um obrigado, doutor e seguiu seu caminho, enquanto o juiz voltava em paz para o seu aparelho de ginástica, reconciliado consigo mesmo. Aprendera uma lição naquela manhã e era grato àquele homem.

 Pouco depois, enquanto exercitava um ombro com artrose, o juiz escutou assobios e gritos que vinham do outro lado da praça e voltou-se:

– Aqui, aqui, chefe – gritava alto o morador de rua  a um motorista que se aproximava e indicava-lhe um local para estacionar ao lado da praça – a missa das dez está quase começando, deixe que o carrinho vai ficar bem cuidado – E a mulher, um pouco mais adiante, indicava outra vaga ao próximo veículo que surgia na esquina, sinalizando como um guarda de trânsito.