O ADVOGADO DE EIKE BATISTA

   Segundo comenta a revista Veja, “ninguém no meio jurídico está entendendo a escolha” de Eike Batista pelo advogado Fernando Martins, “um ilustre desconhecido”, nos termos da revista, e que o mesmo não “deve durar”.

   É o maior desprestígio que já li fazerem aos mais de 1 milhão de advogados e bacharéis brasileiros. Não basta ser competente, é preciso ser “conhecido”. Por que será? Eu tenho 30 anos de magistratura e nunca consegui distinguir um bom argumento de outro idêntico a partir da qualidade do paletó do qual ele saiu.

   Até pelo contrário, sou meio que inclinado a acolher um chiste forense de que “o excesso de sofisticação de defesa é evidência de culpa”, e sei que isso funciona na prática.

   Vi esse “ilustre desconhecido” na TV; é jovem, corpulento, e estava saindo de um prédio  da polícia meio ofegante e com uma pesada pasta a tiracolo. Enfim, para mim, um advogado clássico, um trabalhador. A impressão que tive foi a de um sujeito dando duro para ganhar o seu dinheiro, com o suor de seu rosto.

   Qual o motivo da implicância com um “ilustre desconhecido”?  A resposta parece evidente, embora não seja explicitada; “os ilustres conhecidos” tem muito mais “networking”, relacionamentos sofisticados, que envolvem sociedades benemerentes e outras nem tanto, conhecem muitos políticos, gente do Judiciário, etc. Qualquer advogado conhece muito bem essa realidade e os réus ainda melhor. Em algumas situações, o conhecimento jurídico é o menos importante.

   A revista  Veja torna sinônimas palavras como competência e eficiência, mas no mundo jurídico, a eficiência deve resultar da competência do advogado e, principalmente, das condições intrínsecas do processo. Fora daí, é tráfico de influência e aparência.

   Vejamos o conselho que um personagem do romance “Justiça”, de Friedrich Durrenmatt dá a um jovem advogado sem sucesso: “e sabe por que? Porque o senhor não sabe representar, não tem postura e nem barriga. Ter estudo, sem dúvida, é muito bonito, mas com bons exames e senhor não impressiona ninguém, afora os professores. Uma escrivaninha não basta, o senhor pode ficar reinando atrás dela o tempo que quiser, os clientes não virão a nado.

   Devo dizer que esse foi um conselho sincero que não segui, talvez porque não tenha lido o livro a tempo; por isso virei juiz. É triste reconhecer que o sucesso da advocacia esteja tão ligado à aparência e como as pessoas se deixam influenciar por esses mitos.

   Meu falecido pai era advogado. Há uns quarenta anos, teve um escritório modesto com dois colegas, todos já cinquentões. Um deles ajustou com o outro que iria ao RJ para tirar um sujeito da cadeia (eram o setor criminal do escritório), mas precisava que o colega lhe mandasse dinheiro para o retorno. Foi ao Rio de fusca, tirou o cliente da cadeia, mas o colega não lhe mandou o dinheiro e ele teve que penhorar o relógio que pertencera ao pai, para poder se alimentar, pagar o hotel e colocar gasolina.

       A advocacia, às vezes, lembra um trabalho braçal.

   Conheço pessoalmente um advogado disputadíssimo que só possui aparência e ostentação. E como ostenta. Mas em matéria de direito, é um fracasso. Costuma justamente contratar “ilustres desconhecidos” para elaboração de suas petições, enquanto se dedica a exibir-se publicamente com sofisticação. Já vi o seu trabalho em mais de uma ocasião e a única coisa que me chamou a atenção foi a qualidade do papel e da impressão. O miolo, muito copia e cola de doutrina e jurisprudência, como qualquer um faz aqui no Juizado Especial em ações de dano moral.

   O mundo da advocacia não é feito de “advogados ilustres” e sim de “ilustres desconhecidos”. Quem precisa de “advogado ilustre”, no sentido pejorativo do termo,  está precisando mais do que de um advogado, pelo menos na minha visão do que acontece no plano real.

   A todos os advogados “ilustres desconhecidos” que encaram as rudezas da profissão pelo seu ganha-pão, o meu reconhecimento.